Revolta contra ato de pichar e grafitar é assunto antigo no Brasil. Muitos são contra o "pixo" e a favor do grafite e outros se opõem a qualquer tipo de intervenção que altere as características originais de algum espaço, principalmente o público. Nos últimos dias, o assunto voltou a ser discutido depois que o novo prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), decidiu cobrir com tinta várias pinturas dos muros da cidade, entre elas grafites, que poderiam ocupar salas de arte de qualquer lugar no mundo.
Em Campo Grande, em menor escala, claro, a polêmica já foi maior, principalmente quando a Guarda Municipal foi reformulada, em 2007. Tendo como principal trabalho proteger o patrimônio público, a corporação é a principal "arma" da prefeitura contra os pichadores, ou vândalos, como são oficialmente chamados pelo poder público.
Nesta semana, no entanto, episódio curioso envolvendo pichação também trouxe o assunto para a rotina dos campo-grandenses. Recém pintado pela direção da Associação Beneficente de Campo Grande (ABCG), muro da Santa Casa amanheceu pixado na última terça-feira (24). A ação virou notícia e na página do Portal Correio do Estado no Facebook mais de 150 comentários expressaram revolta com a ação.
Mas as críticas não foram maioria entre os comentários, muitos internautas se sentiram representados com o "pixo" e se orgulharam das letras pintadas com tinta preta. A reportagem, inclusive, encontrou o autor da pichação, que no próprio Facebook compartilhou a notícia se orgulhando do feito. Ele, no entanto, não quis dar entrevista sobre o assunto.
Obra de Cleiton Soares, na escola Joaquim Murtinho (Foto: Coletivo PIC)SIM AO GRAFITE
Grafiteiro e até o ano passado coordenador de projeto que levava oficinas de grafite para escolas estaduais, Pedro Vasciaveo, de 29 anos, explica as diferenças entre as duas intervenções e o motivo de muita gente se ver representada em traços considerados poluição visual para maioria.
Os belos traços, na maioria das vezes coloridos, do grafite são uma evolução das pichações, caracterizadas por palavras e rabiscos ilegíveis em muitos casos, mas que representam a revolta de pessoas geralmente da periferia. "O que difere a pichação do grafite é apenas a estética, o grafite veio da pichação. Em Campo Grande, o 'pixo' é uma forma desses jovens serem vistos, é um grito dos excluídos", conta Pedro.
Grafiteiros e empreendedores sociais - que têm vontade de melhorar a vida de quem vive em bairros dominados pela falta de oportunidade - veem no estímulo do grafite uma alternativa para atrair jovens que enxergam apenas a pichação como forma de expressão.
"Queremos fazer essa passagem da pichação para o grafite de forma leve, que não seja algo forçado. Pichação é uma forma de se expressar, não deixa de ser movimento artístico. Tem um menino de Campo Grande que pixa PDF nos muros, ele tá querendo dizer que esse é o país da fome e que ele não seria ouvido se não fosse pelo 'pixo' na parede", detalha o grafiteiro.
Obra de Pedro Vasciaveo, faz referência à luta das mulheres (Foto: Coletivo PIC)Apesar de reconhecer a pixação como forma de expressão, muitos campo-grandenses e moradores de outras metrópoles se revoltam com a "sujeira" em muros de casas ou imóveis privados. "Nós entendemos que o alvo do movimento não pode ser residência, deveria ser órgão público ou multinacionais, por exemplo".
Sem garantias de que o projeto para direcionamento de crianças e jovens de bairros periféricos, criado em 2015, tenha continuidade neste ano, Pedro e amigos que integram o Coletivo PIC continuam ações pontuais em bairros.
NÃO AO PICHADOR
Durante todo o ano passado, a Guarda Municipal registrou 63 atos de vandalismo relacionados à pichação. Segundo a prefeitura da Capital, em apenas quatro casos foi possível autuar os responsáveis pelos rabiscos. A dificuldade em repreender as ações, segundo o município, é o fato dos pichadores atuarem em grupo.
Pixo na esquina da Rua Consolação com a 14 de Julho (Foto:Valdenir Rezende/Correio do Estado)"Geralmente, um fica cuidando e avisa os outros quando a Guarda se aproxima. Além disso, os pichadores atuam em locais de difícil acesso, o que também dificulta o trabalho da Guarda", informou a prefeitura.
O combate à pichação irá continuar na cidade e tem como aliado o videomonitoramento, que pode facilitar a identificação dos vândalos. Quem for flagrado pode ser multado e no ano passado houve essa primeira multa expedida pela Guarda, no valor de R$ 3 mil. Também pode haver detenção.
Contra medidas austeras, o grafiteiro Pedro conta que na visão dos artistas há situações de maior gravidade que poderiam ser combatidas por corporações como a Guarda Municipal. "Acaba sujando a ficha de um moleque que só quer ser ouvido", finaliza o grafiteiro.
À reportagem, a prefeitura informou que não há projetos de incentivos ao grafite sendo estudados ou executados na cidade, mas que "pontualmente eles ocorrem".
Confira imagens de grafites e 'pixos' espalhados pela cidade: