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Apuração de corrupção no Peru varia segundo cacife de investigados

Apuração de corrupção no Peru varia segundo cacife de investigados

Bruna Aquino

02/04/2018 - 07h31
Notícia sem imagem

- "O que acontece no Peru que cada presidente, quando termina seu mandato, acaba sendo preso?".

A pergunta do papa Francisco, feita durante recente viagem ao país, causou risos amarelos nos ouvintes e gerou um vídeo que viralizou.

A corrupção no Peru não é novidade -a condenação do ex-presidente Alberto Fujimori, em 2009, foi em parte por causa desse delito (além de crimes contra a humanidade).

Segundo o Ministério Público local, as investigações hoje miram mais de 30 empresas (incluindo a brasileira Odebrecht), suspeitas de oferecer propina a políticos ou de financiar campanhas em troca de vitórias em licitações e recebimento de favores.

"É um sistema que vem atuando há muito tempo, mas as revelações da Lava Jato no Brasil permitiram que a apuração fosse mais rápida", diz o jornalista Gustavo Gorriti.

Por causa de suas reportagens durante o fujimorismo, ele foi sequestrado pelo regime. Desde então, dedica-se a investigar a relação entre empresas e poder na América Latina. "Se o Ministério Público funciona no Peru, em grande parte é porque a imprensa independente tem feito pressão desde aquela época", diz.

O caso Odebrecht deu projeção internacional à corrupção peruana, mesmo que o valor dos subornos da empreiteira brasileira a políticos no país andino seja menor que os distribuídos alhures.
Para quem vê de fora, a sensação é de que a Justiça peruana age de modo rápido, rigoroso e apartidário. Em parte, a afirmação é correta.

Porém, assim como no Brasil e na Argentina, há críticas e evidências de que a atuação do Judiciário sofre pressões políticas e de que certos casos são tratados de modo (e com rapidez) diferente de outros.

BEM RELACIONADO

Tome-se o exemplo de Alan García (presidente de 1985 a 1990 e de 2006 a 2011), alvo de duas investigações: em uma, apura-se o recebimento de mais de US$ 8 milhões (R$ 26,5 mi) da Odebrecht para a construção de trechos do metrô de Lima; em outra, a destinação de US$ 200 mil (R$ 664 mil) à campanha do político em 2006. Ele declara "nunca ter recebido um centavo".

O ritmo desses processos, porém, é lentíssimo, e, a julgar por comentários de García em redes sociais, ele não parece temer ser preso.

Segundo a reportagem apurou, isso ocorre porque seu partido, o tradicional Apra (Aliança Popular Revolucionária Americana), foi o único que permaneceu de pé findada a desintegração das siglas pós-era fujimorista (1990-2000).

Por causa do tempo que ficou no poder e da grande base de aliados, García tem contatos-chave tanto no Ministério Público como nas cortes.

É possível que o ex-presidente vá para a cadeia, mas os analistas apostam que ele será um dos últimos.

O caso de Keiko Fujimori é similar. A líder da Força Popular, com a maior bancada do Parlamento, está sendo acusada de ter recebido mais de US$ 1 milhão (R$ 3,3 milhões) da Odebrecht na campanha presidencial de 2011.

Ocorre que ela é uma das pessoas com mais capital político no Peru hoje. Em poucos meses, o fujimorismo conseguiu duas vitórias importantes: um indulto a Fujimori pai e a renúncia do presidente Pedro Pablo Kuczynski.

É com esse cacife que se defronta José Domingo Pérez, o promotor que conduz a causa contra a primogênita do clã.

ENCRENCADOS

Na lista dos que de fato estão encrencados há ex-presidentes que carecem de partidos fortes na retaguarda ou de apoio popular. Um deles é Alejandro Toledo (2001-06), condenado por receber US$ 20 milhões (R$ 66,4 mi) em suborno na concessão para a construção da Rodovia Interoceânica.

Porém, com dois advogados americanos contratados a peso de ouro e um visto que permite a ele ficar nos EUA enquanto dá aulas em Stanford, Toledo vem se livrando da Justiça. Um pedido de extradição está sendo analisado pela Justiça dos EUA. O político nega as acusações.

O único ex-presidente de fato preso "é o mais frágil e a presa mais fácil", na análise de Gorriti. Trata-se de Ollanta Humala (2011-16), em prisão preventiva desde julho.
Ele é acusado de receber para sua campanha de 2011, via caixa dois, US$ 3 milhões (R$ 9,9 mi). Sua mulher, Nadine Heredia, também está presa. Os advogados do casal dizem que a preventiva de 18 meses é abusiva e midiática.

Já o destino de Pedro Pablo Kuczynski, sem foro privilegiado, apoio popular ou partidário, começou a ser traçado no dia seguinte à aceitação de sua renúncia, em 23 de março. Ele é acusado de receber propina e de ter suas empresas beneficiadas por negócios com a Odebrecht quando era ministro de Toledo.

Uma vez que Kuczynski possui dupla nacionalidade e propriedades nos Estados Unidos, onde está sua família, a Procuradoria peruana confiscou seu passaporte.

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