A música fronteiriça dominava serestas, fazendas e restaurantes da região na década de 1970. Polcas, guarânias e rasqueados de Délio e Delinha, Jandira e Benitez, e Beth e Betinha eram as mais tocadas nas rádios locais.
Do lado oposto do disco, jovens influenciados pelo rock internacional de Beatles, Bob Dylan e outros grupos começaram a se reunir para tocar seus primeiros acordes.
“Como eles, de certa forma, rejeitavam essa cultura rural, procuravam outros caminhos para poder exercitar essa ‘fronteirice’. Claro que essa geração não teve como se desvencilhar dessa ‘fronteirice’, mas eles tinham outros referenciais urbanos e cosmopolitas muito fortes”, acredita o professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e doutor em Música, Evandro Higa.
“Por exemplo, ‘Sonhos Guaranis’ é uma guarânia, ‘Trem do Pantanal’ também. A gente vai ver várias canções que têm configurações rítmicas próprias dessa música fronteiriça, mas as letras nem sempre remetem a isso. ‘Sonhos Guaranis’ explicitamente fala de um Brasil que foi Paraguai”, continua o professor.
Nascia ali a geração “Prata da Casa”. “Entra o Almir [Sater], família Espíndola, Paulo Simões, Geraldo Roca, essa turma toda. É criado um movimento de música popular urbana. Nesse esforço, de certa forma, se conseguiu criar uma identidade. A música é uma das representações mais vigorosas, que possibilitam a construção da imagem cultural de uma região”, diz Higa.
Paulo Simões, compositor de “Sonhos Guaranis”, com Almir Sater, e de “Trem do Pantanal”, com Geraldo Roca, crê que canções como estas preenchiam um “vazio cultural” deixado no sul, após a divisão de Mato Grosso.
“Sob a demanda de atender a necessidade de se formar uma identidade de uma hora para a outra, a música passou, em muitos momentos, a procurar responder a isso. Eram vertentes que a gente sempre explorou, mas não com a intenção de nos tornarmos especialistas ou referência. Ninguém nunca quis marcar território”, conta.
Porém, o cantor e compositor assegura que o movimento musical sul-mato-grossense daquele período não se resumia a temas regionais. “Chamavam mais a atenção porque eram as canções que se esperavam reunir para criar essa identidade, mostrar um rosto. Mas não era um retrato fiel do que estes artistas fizeram. Não era só isso. Era só a ponta do iceberg”.
GRITO ECOLÓGICO
Geraldo Espíndola foi um dos expoentes da geração “Prata da Casa”. O músico explica que a música de fronteira ajudou a tornar possível o nascimento de uma linguagem própria daquele movimento sonoro.
“As nossas fronteiras nos diferenciam porque elas nos trazem influências musicais e culturais fortíssimas. Jandira e Benitez faziam serestas. Desde pequeno que eu escuto essas serenatas paraguaias. O [Geraldo] Roca morou a vida inteira no Rio, mas veio para cá beber essa água. Quando ele veio, a primeira coisa que fez foi comprar todos os discos de música regional”.
Com os irmãos, Alzira, Celito e Tetê, Geraldo lançou “Tetê e o Lírio Selvagem”, em 1978, que ele classifica como “primeiro grito ecológico da música pop no Brasil”.
Elementos da natureza são lembrados em canções como “Rio de Luar”, “Andorinha Manca” e “Bem-Te-Vi”. “Sempre cultivei nas minhas letras esse lado de preservar a natureza. Nunca gostei de morar longe do sistema ecológico, do ar puro, das águas, desse matão nosso aqui”, ressalta o músico.
Passadas quatro décadas, as canções que incidiram na formação da identidade sul-mato-grossense seguem como referência. “Essa geração ‘Prata da Casa’ estabeleceu um repertório que já se tornou um clássico, que é aquele repertório que nos representa. É o passado que vai nos dar o porto seguro. Existe algo, que está lá atrás, que dá sentido a nossa existência hoje”, conclui Evandro Higa.