Cidades

INFESTAÇÃO URBANA

Gatos abandonados nas ruas crescem e atormentam Campo Grande

Nem CCZ consegue dar mais conta do problema e atender a demanda

Redação

05/11/2018 - 16h56

Campo Grande está se tornando a cidade dos gatos. E não, não é uma coisa boa, visto que eles estão abandonados pelas ruas.

A força de expressão, ouvida em supermercados, açougues, conveniências e outros espaços de convivência social da Capital deixa de ser uma mera figura de linguagem quando se nota, seja por percepção dos olhos dos moradores ou os dados oficiais da prefeitura, que aumentaram consideravelmente o número de felinos domésticos pelas ruas (veja números abaixo). 

E não, eles não escolhem classe social. Seja bairro de rico ou de pobre, os gatos estão lá, vítimas do abandono de donos que por questões alheias à serenidade e bondade, mas altamente prejudiciais à saúde pública, abandonam seu animais de estimação em parques, áreas verdes ou terrenos espalhados pela cidade.

"Estamos vivendo um terror", disse o mecânico Gérson Valadares, 42 anos. Morador do bairro Jóckey Clube, na região sul, apontando para a lixeira em frente à sua casa repleta de sacolas rasgadas e restos de comida espalhados pelo chão.

Os culpados pela bagunça não demoram a aparecer: uma família inteira de gatinhos que mora embaixo de uma Brasília amarela abandonada e em frangalhos. O lixo das residências serve de comida e água empoçada nas guias de calçada, seja de chuva ou dos vizinhos que lavam seus quintais, garante a necessária hidratação.

A necessidade de evitar o acúmulo de sujeira causado pelos gatos faz com que procedimentos diários sejam alterados, como a colocação do lixo para recolha em suas lixeiras bem mais tarde que o habitual, muitas vezes já beirando a madrugada. "Mesmo assim tem um outro que rasga o saco", reclama o mecânico.

Se a ambientação é motivo de queixa para os humanos, para os gatos ela parece ser mais simples. O Correio do Estado circulou por cerca de 25 minutos pelas ruas da região e flagrou ao menos 12 gatos andando, muitos comendo restos em sacolas rasgadas, aparentando estarem abandonados.

Lixo revirado: no Jóckey Clube, moradores precisaram adaptar rotina para evitar sujeira (Rafael Ribeiro)

A dois quarteirões da Avenida das Bandeiras a dona de casa Maria Firmino Souza, 39, aponta para o terreno que ela julga ser a origem do foco do problema: baldio, o espaço tem mato alto e seria ponto de descarte de filhotes e fêmeas prenhas.

"O pessoal aqui todo vê carro chegando, jogando os bichinhos e indo embora, uma judiação. A gente tem medo de tirar foto e tal. Muitos colocam comida e aí complica mais ainda, afinal eles vão ficando", disse.

Distante da movimentação frenética de uma das principais vias de Campo Grande, o Cidade Jardim é um refúgio na região leste, com suas casas de alto padrão, enclausuradas entre a saída para Três Lagoas e o Parque dos Poderes, sede do Governo do Estado.

Mas as silenciosas e pouco movimentadas ruas do bairro vem sofrendo com o crescimento da população felina, provavelmente abandonada pelos donos nos amplos espaços verdes vizinhos. Se tornou normal tem a tranquilidade rompida por miados, gritos e até acidentes domésticos.

No Cidade Jardim, casas são invadidas pelos felinos e causam problemas, como a queda de parte do teto da cozinha (Rafael Ribeiro)

Foi o caso da bibliotecária Pillar Massud, 27, que um dia acordou com parte do teto da cozinha destruído, a janela de sua sala quebrada e muito sangue pelo chão. "Se tornou comum no bairro termos gatos pulando entre telhados. O número cresceu muito", disse.

Nas cercanias da Avenida Júlio de Castilho, na região oeste, em meio às agitações pela área comercial do bairro, moradores também são obrigados a mudarem sua rotina diante do crescimento de gatos na rua. Dono de um restaurante, Evandro Lúcio, 29, já teve que trocar janelas e vedar até saídas de ventilação para impedir a entrada dos felinos.

"Passa muita gente por aqui o dia inteuiro durante o dia. À noite os comércios fecham. Vira um prato cheio para abandono de animais na rua", disse o comerciante. "Tem muito comércio de comida pela região, por isso ajuda a proliferar. Eu aviso: gente não pode alimentar. Mas muita gente fica com dó", completou.

Janela quebrada: moradora sofreu com gatoi que tentou sair de dentro da sua casa (Rafael Ribeiro)

DEMANDA GRANDE

Em comum entre os entrevistados pela reportagem, a cobrança para que a prefeitura faça algo. Só que a demanda na Capital assusta.

Por meio de nota, o Centro de Controle de Zoonozes, cuja administração é de responsabilidade do prefeito Marcos Trad (PSD), informou que a castração é, desde 2006, o método utilizado para controle do crescimento de gatos na cidade. Mas que "a própria crescente no número de animais abandonados contribui para que tenhamos aumento considerável."

A demanda pela cirurgia cresce consideravelmente junto com a população de gatos. Desde abril, quando o centro cirúrgico do CCZ foi reaberto após reformas, até setembro, último mês com os dados fechados, foram realizados 3.596 castrações de felinos. Ou seja, na média, a cada dia no período 20 animais foram operados. 

Para se ter uma ideia, para cada cachorro castrado em Campo Grande, outros 25 gatos passam pelo procedimento. E apenas 433 felinos foram adotados até aqui no ano. 

"A gente liga para o CCZ, fazemos esse trabalho com eles, mas a coisa vai além da prefeitura. As gatas entram no cio a cada três semanas, com o nascimento de cinco a dez filhotes", explicou Paula Brislena, diretora da ONG Guarda Animal, que recolhe animais de rua na Capital.

Pela dificuldade de cuidados necessários, o foco da entidade acaba sendo cachorros. Mas Paula admite que a maioria dos pedidos de resgate são de gatos, cerca de 15 por dia, dos mais variados horários e bairros da cidade: Jardim Noroeste, Aero Rancho, Coophavila e Guanandi são onde mais solicitações são recebidas.

"A conscientização tem que ser do dono. Animal de estimação não é brinquedo. São Necessários cuidados. A gente indica veterináriso que fazem a cirurgia de castração por R$ 100, R$ 150. É um custo que a pessoa que se submete a ter um animal de estimação tem de estar ciente de que terá, pela saúde do bichinho", completou.

As castrações pelo CCZ são agendadas todo dia 20 de mês, de forma presencial, na sede do órgão, ao lado da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. São apenas 600 vagas mensais, por isso Paula escancara a importância de se preocupar com a questão por parte dos donos. 

Na avaliação da prefeitura, a quantidade de animais recebidos que são encontrados abandonados em via pública é muito variável, porém "nos meses de primavera e verão, que são meses com maior influência solar sobre o ciclo de reprodução dos animais, nota-se que aumentam relativamente o número de abandonos."

Ainda de acordo com a nota divulgada pelo CCZ, uma das medidas tomadas é a de intensificar as campanhas de educação e conscientização e punir com mais rigor as pessoas que abandonas animais na rua.

A prefeitura completa que é sua responsabilidade fazer o recolhimento dos animais que já estejam em situação de rua ou abandono. Caso o animal não seja agressivo e a pessoa tenha condições, é recomendável que ele seja levado ao CCZ. 

Se a pessoa não tem condições de levar esse animal, basta entrar em contato através 3313-5000 ou 3313-5001 e solicitar o recolhimento do animal e o órgão irá agendar a visita. É recomendável indicar a localidade do animal ou tentar manter esse animal sob tutela uma vez que ele pode se locomover não sendo possível a localização.

Entretanto, é necessário atenção com uma questão. De acordo com a legislação ambiental, alimentar animais de rua é passível de punição.

É preciso observar o tempo em que este animal está supostamente sob a tutela do cuidador. Por isso é extremamente importante que ao ver um animal em situação de abandono a pessoa deve entrar em contato imediatamente com o CCZ e evitar recolher ou tratar esse animal, pois será mais complexo o processo de entrega ao órgão uma vez que este animal não será mais considerado de rua.

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