Cidades

TENSÃO

O que fez com que a pandemia e aulas remotas sobrecarregassem os professores

Secretarias de educação deram uma semana do saco cheio extra para reduzir sobrecarga

Ricardo Campos Jr

01/09/2020 - 06h00

Professores e demais envolvidos no processo ensino-aprendizagem do Estado e Campo Grande ganharam uma semana do saco cheia extra a partir dessa segunda-feira (31) para se recompor do desgaste gerado pela pandemia e pelas aulas remotas. O que isso quer dizer na prática? Dados extraoficiais da Associação de Professores da Capital (ACP) apontam que pelo menos mil educadores sofreram com algum tipo de estresse nos últimos cinco meses.

Ao Correio do Estado, a doutora em educação Ângela Maria Costa explica que dar aulas distantes dos alunos é bem mais exaustivo do que os encontros presenciais, mesmo sem ter que lidar com a bagunça e indisciplina.

“Não é só a linguagem oral. O educador tem que preparar exercícios, debates. Ninguém estava preparado para isso. Além disso, não conseguem o mesmo resultado. Somente alunos que tem uma infraestrutura adequada da família conseguem aproveitar alguma coisa”, afirma.

PAUSA BEM VINDA

Lucílio Souza Nobre, presidente da ACP, explica que a formação dos professores não incluiu ensino remoto ou à distância e quando o profissional tem, do dia para a noite, começar a usar a própria casa como se fosse sala de aula, teve que adaptar toda a sua estrutura.

“A escola é o espaço adequado para desenvolver as competências e habilidades dos alunos. O professor foi pego de surpresa nessa mudança abrupta de metodologia. Somado a isso, os equipamentos e instrumentos que ele tem à disposição não são adequados. A internet é limitada. Se você tem ainda três ou quatro pessoas em casa, não vai rodar e tem regiões que sequer têm acesso”, diz.

Outro problema é que o atendimento ao aluno, antes feito em conjunto, passou a ser individualizado.

“Tem professores que têm 900 alunos, como que ele vai conseguir baixar os dados? Baixar as atividades? Além disso, no presencial você tem o contato, tem o emocional, tem o olhar. Nós usamos toda essa sensibilidade para desenvolver e fazer com que o aluno aprenda”, afirma o presidente da ACP.

Ele reconhece que nem o poder público, tampouco os professores têm culpa do ensino remoto, que foi forçado pela pandemia e deve durar até que a Covid-19 permita. A questão é fazer um alerta para a sociedade para que não julguem os professores, que estão na linha de frente no contato com as famílias e alunos.

“É realmente uma tragédia. O professor está sofrendo de ansiedade. É um estresse muito grande. Muitos pais não conseguem acompanhar seus filhos, muitas vezes trabalham o dia inteiro. Muitas vezes misturam horários, os pais pedem ajuda fora do período de aula. Isso realmente levou muitos professores da rede pública municipal a pedirem afastamentos e até licença”, afirma.

Nobre acrescenta que muitos são os educadores que já tinham algum problema anterior à pandemia, que durante o isolamento se agravou. “Em conversa com a Semed, são 1,5 mil professores que eles vão acompanhar por conta de alguma comorbidade pela situação de pandemia, ligando, perguntando como está”, afirma.

EXEMPLO

Uma professora de 53 anos que leciona tanto no Estado como no Município disse ao Correio do Estado que teve as doses de remédios para ansiedade aumentadas nas últimas semanas. 

No caso dela, o problema é a falta de familiaridade com os dispositivos que estão sendo usados neste momento. “Eu faço parte de outra geração, tenho pouca facilidade com as novas tecnologias e tenho inclusive sido julgada por isso. É preciso correr atrás de atividades que se encaixam no perfil das ferramentas que estamos utilizando, dentro de prazos determinados, cadastrar tudo no sistema e ainda ouvir cobranças, especialmente de pais”, relata. 

A educadora conta que a pandemia forçou com que os contatos com os alunos fosse realizado em grupos de WhatsApp. Com isso, as famílias tiveram acessos aos números de telefone particulares das equipes pedagógicas. A orientação é jamais responder mensagens enviadas no privado, mas há quem tente. 

“Houve vezes que os pais falaram mal da equipe pedagógica no grupo onde estão todos os alunos e nós sequer podemos rebater”, completa.

INCERTO

O retorno das aulas presenciais depende da autorização das autoridades necessárias e por enquanto não está nos planos, nem do Estado e tampouco do município. 

A secretária de educação de Mato Grosso do Sul, Maria Cecília Amêndola da Mota, pediu a todos que desliguem computadores e evitem tocar nos celulares durante essa semana para que ela atinja seu objetivo que é tirar um pouco da sobrecarga.

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