Professores, pais e alunos foram pegos de surpresa com o ensino remoto organizado do dia para a noite. Para especialistas ouvidos pelo Correio do Estado, foram expostas deficiências de ordem tecnológica, social e psicológica no processo de ensino-aprendizagem. Até que ponto futuros pedagogos e professores devem ser preparados para lidar com esse tipo de situação no futuro?
A doutora em educação Ângela Maria Costa acredita que há necessidade de mudança nos currículos de licenciados.
“Os cursos vão ter que mudar, vai ter que mexer. O problema é que nós sabemos que isso é uma tarefa extremamente demorada em nosso país. Até agora continua sendo privilegiada a competição, com quantidade maior de conteúdos com itens que já estão até obsoletos para serem ensinados, que não há a menor necessidade de ficar decorando. Alguns países já estão se reformulando”, afirma.
A questão, segundo ela, não reside exatamente no que se ensina, mas como se ensina. “O que estamos vendo hoje no mundo inteiro é que há necessidade de dar atenção maior ao desenvolvimento emocional dos alunos. Eles estão totalmente fragilizados. Começamos a perceber que só conteúdo não resolve. Eu sempre disse isso: é preciso educar para a vida”, afirma.
OUTROS PROBLEMAS E DESAFIOS
O doutor em educação Antônio Osório concorda que o emociona foi um dos fatores que ajudaram a fazer do ensino remoto um verdadeiro problema, mas acredita que o problema também tem suas causas na outra ponta da corda: as famílias dos alunos.
“Ao entrevistarmos pais e professores sobre os reflexos da pandemia na educação para um trabalho de conclusão de curso no qual orientei, vimos que são necessárias políticas para que os educadores tenham mais acesso e aprendam a usar as tecnologias, já que foi tudo feito de forma improvisada. Ninguém estava prevendo que isso ia acontecer, mas enquanto muitos professores não sabiam manusear os dispositivos e plataformas, o mais grave foram as condições dos alunos em poder utilizar-se delas para aprender”, disse ao Correio do Estado.
São situações já relatadas em várias reportagens do Correio do Estado sobre educação em 2020: falta de acesso à internet, a disponibilidade de apenas um celular ou computador para uma casa com mais de uma criança em idade escolar.
Dessa forma, o que precisa ficar como lição de todo esse problema de ensino é a melhoria no acesso da população às tecnologias.
“O problema não é só estar preparado ou não. É que tipo de acesso se tem a essas tecnologias. A rede municipal tentou distribuir apostila, mas isso não resolveu porque os pais não tinham tempo de ir busca-las porque estavam atrapalhando. A questão não é preparar o professor, mas as condições econômicas e sociais nas quais esses alunos estão inseridos”, afirmou Osório.
São precariedades que o doutor em educação classifica como históricas, varridas para baixo do tapete mandato após mandato e que agora se escancararam.
“A grande lição que nós tiramos de tudo isso, e já vou radicalizar um pouco, é que tanto na educação quanto na área da saúde, a precariedade ganhou visibilidade. Muitas questões são acumuladas historicamente. Temos muitos desafios ainda pela frente”.