A defesa do delegado Hoffman D'ávilla Cândido e Sousa, representada pelo advogado José Roberto da Rosa, argumenta que o suposto envolvimento do policial com traficantes era por interesse em informações, ou seja, estes eram usados como informantes.
De acordo com Rosa, "um delegado, chefe da delegacia de narcóticos, acaba querendo ou não tendo que ter contato com pessoas que vivem no submundo. Porque são pessoas que são tecnicamente chamadas de possíveis informantes". Então, para a defesa, o material usado pela Polícia Federal indica que o contato que Hoffman tinha com alguns malfeitores seria no sentido de arrecadar informações.
"Na investigação federal, há de fato algumas provas que indicam, como eu disse a vocês, o contato dele com malfeitores. No entanto, há também indicativos de que vários seriam pessoas informantes, assim como na justiça estadual, é o tal do LK, que era um informante da Delegacia Especialiazada de Repressão ao Narcotráfico (DENAR), e por isso ele tinha no telefone dele o telefone de alguns policiais, inclusive o delegado", disse o advogado.
José Roberto diz também que a investigação da justiça estadual (se referindo a Operação Infiltrados) é "praticamente a mesma coisa, que se investigou a nível federal" (Operação Ifrit), porém, com outros personagens.
"E aí mais uma vez vou dizer para vocês, que essa coisa das instituições não se comunicarem, nós podemos estar diante de uma investigação que aconteceu sobre o mesmo objeto, sobre o mesmo fato, uma no âmbito federal e outra no âmbito estadual".
Proximidade com clã Haidar
O advogado também comento sobre as fotos divulgadas na imprensa local, as quais mostram Hoffman D'ávilla em comemorações, churrasco e até karaokê com Adel Hassan Haidar, apontado pela Polícia Federal como um dos líderes da organização criminosa que traficava armas e drogas para outros países, inclusive com destino à Europa.
O grande X da questão é que esse material veio para as nossas mãos e eu ainda não sentei com o Hoffman para entender qual o contexto. Essa investigação, ela vem desde 2025. Eu não sei exatamente qual o contexto dessas imagens. Até tem uma questão envolvendo um karaokê, alguma coisa assim. Eu preciso entender da parte dele, onde foi, com quem foi. Infelizmente, a minha cidade, Ponta Porã, uma parte considerável dos empresários lá, infelizmente, tem algum tipo de envolvimento. E você nem sempre, quando frequenta a casa de alguém, sabe se aquela pessoa tem algum tipo de envolvimento com a traficância. Então, eu não sei se a época que esses eventos ocorreram, essas pessoas eram, de fato, investigadas ou não. Então, eu vou precisar ainda de tempo, principalmente, para checar a origem desse material. Em que época foram produzidas, que contexto que isso aconteceu. Porque o problema é quando você pega isso tudo, monta uma novela mexicana e vende aquilo como verdadeiro.
A Operação Ifrit, deflagrada pela PF e pela Receita Federal do Brasil, indica que os irmãos Haidar, Adel e Bassan, seriam os líderes da organização criminosa, que ainda contava com outros integrantes no núcleo familiar em posições de chefia.
Eles atuavam em Ponta Porã, cidade que faz fronteira com Pedro Juan Caballero, no Paraguai, por onde entrava a cocaína e também as armas utilizadas e vendidas pelo grupo criminoso.
“As apurações evidenciaram a existência de uma estrutura criminosa organizada, estável e permanente, com divisão de funções entre lideranças familiares, operadores financeiros, responsáveis pela logística, transporte e segurança armada. Os elementos colhidos indicam vínculos operacionais com facções criminosas, além da colaboração de agentes públicos que teriam fornecido informações estratégicas e apoio às atividades da organização”, diz trecho da nota da Receita.
As organizações criminosas citadas seriam o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Primeiro Grupo Catarinense (PGC).
“As investigações demonstraram ainda que a organização exercia influência em áreas da faixa de fronteira, utilizando armamento de elevado poder ofensivo, equipamentos de comunicação, drones, veículos blindados e estruturas destinadas ao abrigo de integrantes armados. Os elementos reunidos apontam uma organização com significativa capacidade logística e operacional, apta a movimentar grandes volumes de drogas e armas, bem como a garantir a continuidade de suas atividades ilícitas em diferentes localidades do País e no exterior”, traz a nota da Receita Federal.
De Mato Grosso do Sul, drogas e armas entravam no Brasil através da fronteira com a Bolívia, do Peru e do Paraguai, elas seguiam para para outras unidades da Federação, especialmente São Paulo, Paraná e Santa Catarina, e também para países da Europa, como Espanha e Portugual.
Entre os alvos em MS estavam Adel Hassan Haidar, Bassan Hassan Haidar, Maroan Fernandes Haidar Ahmed, Adule Vásques Haidar, Mamede Alhaj Haidar, Fahd Haidar, Renan Braian Garcia Presotto, Bruno Banega e Brendo Benega Pereira, além do delegado Hoffman D’ávila e do investigador Douglas Tobias, que já tinham sido alvo de outra operação recentemente.
Transferência para presídio federal
O delegado Hoffman D’Ávila, que estava preso desde o dia 24 de setembro em uma cela da Delegacia Especializada de Repressão a Roubos a Bancos, Assaltos e Sequestros (Garras), foi transferido para a Penitenciária Federal em Campo Grande após a operação de quarta-feira (4).
O advogado de Hoffman disse que ainda não obteve acesso a decisão e a justificativa que motivou a transferência. José Roberto afirma que o questionará diretamente ao Juízo Corregedor para ter acesso à decisão que o levou ao Presídio Federal.
Ele explicou que o juiz da causa solicita a vaga no presídio federal, o juiz corregedor avalia se ele preenche os requisitos para entrar na penitenciária e aí oferece essa vaga para o juiz da causa. "Então, nesse momento, esse processo que fez o pedido da vaga e a concessão é que nós não tivemos acesso ainda, mas isso provavelmente hoje até o fim do dia eu devo ter acesso".
Além disso, José Roberto da Rosa diz que a decisão federal de prisão carece de fundamentação, pois foi decretada a prisão de alguém já detido, sem autonomia de necessidade.
Ele avalia a transferência para um presídio federal como desnecessária, ilógica e sem base jurídica, visto que Hoffman já estava isolado em uma delegacia, afastado de suas funções e não é considerado um sujeito perigoso ou com antecedentes criminais.