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Consórcio sobe o tom e pressiona prefeitura por aumento da tarifa ou subsídio

Presidente do grupo de empresas responsável pelo transporte coletivo na Capital alega que há dificuldade para arcar com as despesas de operação da concessão

Próximo da entrega da revisão do contrato de concessão do transporte coletivo, o Consórcio Guaicurus subiu o tom em relação ao serviço. 

Segundo o presidente das empresas responsáveis pelo serviço, João Rezende, para que os ônibus continuem funcionando, é necessário que se refaça a conta da tarifa ou que seja concedido subsídio do poder público, sobretudo neste ano de pandemia.

O Consórcio pressiona a Prefeitura de Campo Grande para que tome uma decisão, e entre as alternativas estão afetar o bolso do consumidor, que precisa utilizar o serviço de transporte público para se deslocar, ou o caixa do Executivo.  

As alterações estão previstas no Termo de Ajustamento de Gestão (TAG), que começou a ser elaborado no início de 2019. A retomada do processo foi ordenada pelo Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso do Sul (TCE-MS), e no ano passado o documento foi assinado pelas partes.  

“A tarifa não está conseguindo pagar o serviço, não temos como realizar mudanças e melhorias sem receber para isso. A prefeitura tem que realizar uma revisão nos valores, seja por meio do subsídio, seja pelo reajuste de tarifa, e cumprir o seu papel como contratante: o transporte público é obrigação deles, nós temos o direito de concessão para oferecer o serviço. A situação está muito difícil”, explicou Rezende.  

Segundo dados da Agência Municipal de Regulação dos Serviços Públicos (Agereg), em 2020, o Consórcio Guaicurus teve mais despesas do que faturamento, o que fez com que o conjunto de empresas que operam o transporte público na Capital terminasse com deficit nas contas.  

Enquanto, em 2019, a empresa teve uma receita de R$ 166 milhões e uma despesa de R$ 158 milhões, com uma margem de lucro correspondente a R$ 8 milhões, em 2020, a receita foi de R$ 92 milhões e as despesas continuaram altas, chegando a R$ 112 milhões, gerando um saldo negativo de R$ 20 milhões para o consórcio.

A diferença é ocasionada pela pandemia da Covid-19, já que o transporte público ficou restrito por algum tempo por conta da alta possibilidade de contágio pela doença.

“Da maneira que está não dá para continuar. A prefeitura garantiu que teríamos o reequilíbrio das contas e nada foi feito, eles fizeram o compromisso de apresentar o estudo com mudanças, mas não tivemos nada. Sem recurso, a operação do transporte fica comprometida”, alegou Rezende.  

SUBSÍDIO

Em entrevista ao Correio do Estado em fevereiro, o diretor-presidente da Agereg, Vinícius Leite Campos, revelou que o poder público buscava formas de subsidiar o serviço, que, segundo a concessionária, teve prejuízo em 2020 e teme que a situação se repita este ano.

O gestor comparou o transporte coletivo com a aviação, que recebe verbas federais para sua manutenção, e disse que, da forma como o serviço é tocado atualmente, a conta não fecha e não haveria outra alternativa senão injetar verbas públicas.

Em fevereiro, o prefeito de Campo Grande, Marcos Trad (PSD), atribuiu ao governo federal a responsabilidade de auxiliar os municípios no incentivo ao transporte coletivo. 

“O governo federal tem, sim, de ajudar as cidades no transporte coletivo, até porque ele é beneficiado. Por exemplo, ele [o governo] obriga o Consórcio a dar gratuidade aos idosos, só que ele não dá nenhum tipo de ajuda”, afirmou Trad.

João Rezende destaca a falta de iniciativa por parte da prefeitura no cumprimento das determinações, o que influencia diretamente no funcionamento dos serviços.

“O que temos visto em outras cidades, principalmente agora na pandemia, é que as prefeituras estão socorrendo o transporte coletivo. Isso não está acontecendo aqui, e, em razão disto, o transporte público está entrando em colapso. A população cobra dos prestadores de serviço toda a culpa dessa situação, a prefeitura também tem que ajudar”, argumentou.  

Atualmente, o passe do transporte público de Campo Grande, administrado pelo Consórcio Guaicurus, custa R$ 4,20. O último reajuste aconteceu em dezembro de 2020.

No início da semana, um levantamento realizado pelo Instituto de Pesquisa Resultado (IPR), a pedido do Correio do Estado, apontou que a maioria dos usuários é contra o uso de verbas públicas para subsidiar o transporte coletivo.  

Foram ouvidas, por telefone, 318 pessoas entre os dias 18 e 19 de março. Deste total, 64,78% não concordaram com a medida, enquanto 35,22% se mostraram favoráveis. A margem de erro é de 5,5% para mais ou para menos.

Outro ponto em debate é a lotação dos veículos. Atualmente, permite-se que os carros andem com 70% da capacidade, enquanto para especialistas o correto deveria ser algo em torno de 30%.

MEDIDAS  

Há mais de um ano, cerca de 81 carros do consórcio estão circulando em Campo Grande com a idade vencida, quando já deveria ter acontecido a renovação da frota. O contrato firmado entre a empresa e a prefeitura estabelece o limite de cinco anos de rodagem para os ônibus.

Em 2019, por causa da mesma situação, a Agereg ameaçou multar a empresa em R$ 2,7 milhões, mas o processo foi suspenso após a compra de 55 carros. Não houve compras em 2020.

Rezende alega que, “sem o recurso financeiro, não tem como ocorrer as mudanças, a renovação da frota. [Isso] Só vai acontecer quando tivermos dinheiro ou suporte do Executivo”.

O consórcio também foi multado em R$ 12 milhões por descumprir a obrigatoriedade de contratação de Seguro de Responsabilidade Civil, Geral e de Veículos. A empresa ainda não pagou a multa que recebeu e até hoje o seguro não foi feito.

O contrato de concessão do transporte público de Campo Grande em vigor foi assinado em 2012, na gestão do então prefeito Nelson Trad Filho. As empresas constantes no grupo ganharam o direito de explorar o serviço por 20 anos.

TAG

Além do reequilíbrio econômico-financeiro do contrato, outras mudanças estão sendo ajustadas entre prefeitura e Consórcio Guaicurus e afetam diretamente o usuário do transporte coletivo. As alterações estão previstas no TAG.  

O texto determina que “é dever do gestor imprimir esforços para bem gerir e administrar o patrimônio público, no sentido de atender a população nas suas dificuldades e vulnerabilidades, bem como adotar medidas visando sanar as irregularidades apontadas e a boa prestação no serviço”.

A medida determina que a Prefeitura de Campo Grande, a Agereg, a Agência Municipal de Transporte e Trânsito (Agetran) e o Consórcio Guaicurus realizem ações de melhoria do transporte público na Capital.

O TAG também estabelece ações que vão proporcionar solução adequada para algumas impropriedades apontadas na inspeção realizada no exercício de 2019, como consta no processo TC/1863/2019.

O resultado da inspeção apontou que o transporte público estaria operando com frota velha, ausência de investimentos essenciais, não comprovação de gastos em seguros, falta de investimentos na construção de novos terminais e instalação de pontos e faixas exclusivas para ônibus, entre outros.

Entre as obrigações da Agetran, estão a apresentação de plano consolidado de fiscalização, manutenção e conservação dos terminais de ônibus, além do plano detalhado sobre os pontos de parada, com a inclusão de regras e padrões mínimos de instalação, realocação e efetivação de abrigos.

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