Apesar da diminuição no número de casos de coronavírus em Mato Grosso do Sul, a ocupação de leitos pediátricos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) continua alta, em virtude de outras doenças respiratórias, que costumam acometer principalmente crianças durante o período de tempo frio e seco.
Ao todo, são 20 leitos críticos no Hospital Regional de Mato Grosso do Sul, dos quais 10 estão ocupados pela UTI neonatal, seis estão sendo utilizados por pacientes com outras doenças e 4 estão ocupados por pessoas com Covid-19.
Segundo o diretor do hospital, Lívio Viana de Oliveira Leite, “100% das vagas estão ocupadas”. No estágio mais crítico da pandemia, no mês de junho, a lotação chegou ao patamar de 160%.
Situação semelhante ocorre no maior hospital de Mato Grosso do Sul, a Santa Casa de Campo Grande, mas não com casos de coronavírus.
De acordo com a assessoria de imprensa do local, a taxa de ocupação nos 8 leitos de UTI pediátricas do SUS disponíveis é de 95%, sendo nenhum ocupado por paciente com Covid-19.
Com diferentes patologias, em junho, a instituição registrou 197 internações de crianças de até 9 anos. Até o dia 27 deste mês, já foram realizadas 182 hospitalizações na mesma faixa etária.
Na Caixa de Assistência dos Servidores de Mato Grosso do Sul (Cassems), instituição privada com leitos de UTI pediátricos, a taxa de ocupação é de 100% em Campo Grande.
O hospital informou que não há crianças em tratamento por Covid-19. Em nota, a assessoria de imprensa da Cassems confirmou que:
“Nesta época do ano, quando o tempo está mais seco e as temperaturas apresentam grandes oscilações, as internações mais recorrentes se referem às doenças respiratórias não relacionadas à Covid-19. Nos meses de maio, junho e julho, as internações costumam aumentar cerca de 80%”, frisa.
O Hospital Unimed de Campo Grande informou que no momento não dispõe de UTI pediátrica, uma vez que a inauguração estava prevista para ocorrer no início de 2020. No entanto, com a pandemia, o espaço foi readaptado para o tratamento de pacientes adultos graves.
A cooperativa ressaltou que houve aumento no número de atendimentos no Pronto Atendimento Pediátrico nas últimas semanas, em razão do tempo seco, típico de outono e inverno.
De acordo com o pediatra Alberto Jorge, com a incidência de coronavírus em Campo Grande, é possível notar um aumento de casos de Covid-19 nas crianças nos consultórios e nos pronto atendimentos hospitalares.
“A maioria possui poucos sintomas, de evolução benigna. Em contrapartida, nesta época do ano, aumentam os registros de infecções respiratórias, de uma maneira geral, não só as infecções virais ou bacterianas, como também os casos de rinite e rinossinusite alérgica”, ressaltou.
Ainda sobre as síndromes respiratórias, o pneumologista Ronaldo Queiroz apontou que as internações recorrentes de crianças nesta época do ano podem ser explicadas em razão da baixa procura pela vacinação contra a H1N1.
“A presença do ar frio e do tempo seco e o aumento da poluição atmosférica provocam uma diminuição da nossa imunidade e dos mecanismos de defesa. Essa alteração é responsável pelo surgimento de resfriados e, em casos mais graves, pneumonias em crianças e idosos em um cenário que as pessoas estão se descuidando com a imunização contra a gripe”, frisou.
Coronavírus
Para o infectologista e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Julio Croda, o aumento de casos confirmados de Covid-19 em crianças de até 9 anos pode ter ocorrido pela maior exposição dos pais ao cenário de contágio. Outro fator que pode ter colaborado para uma maior incidência da doença, é o retorno das aulas presenciais.
“As crianças não são um vetor da doença, o que ocorre é um reflexo da elevada transmissão. Escolas abertas trazem como consequência, mais casos confirmados”, afirma.
De acordo com os dados da Secretaria de Estado de Saúde (SES), 2.298 crianças de zero a um ano já foram contaminadas pelo coronavírus. Entre um a nove anos, 10.864 crianças já tiveram a doença até esta quinta-feira (29).
Em relação às mortes, 11 crianças já perderam a vida em decorrência da Covid-19. Destas, cinco eram bebês menores de um ano e seis eram crianças de um a nove anos. Seis adolescentes de 10 a 19 anos já morreram no Estado em decorrência da doença. O último caso foi registrado ontem, em uma jovem de 15 anos, sem nenhuma comorbidade relatada.
Mortalidade
Dados publicados em junho deste ano pelo Sistema de Informação de Vigilância da Gripe (Sivep-Gripe) e compilados pelo Estadão, com apoio de Leonardo Bastos, estatístico da Fiocruz, apontam que o Brasil é o segundo país com mais mortes de criança por Covid-19, atrás apenas do Peru.
Até maio deste ano, 948 crianças de zero a nove anos morreram em decorrência da doença no País.
A cada um milhão de crianças de zero a nove anos existentes no Brasil, 32 perderam a vida para o coronavírus. No Peru, país com o maior número de mortes entre os 11 analisados, foram 41 por 1 milhão.
Nos países europeus, o cenário foi diferente. O Reino Unido e a França registraram apenas quatro mortes de crianças de zero a nove anos, o que dá uma taxa de 0,5 morte por 1 milhão em cada um dos países.