Cidades

SANTA MÔNICA

Assentados estão sem água desde sexta e Rio Anhanduí vira fonte

Moradores usam poço artesiano e precisam da energia para bombear água para suas casas

Moradores do Assentamento Santa Mônica, em Campo Grande, estão desde sexta-feira sem energia, depois do temporal que devastou Mato Grosso do Sul com ventos de até 102 km/h. 

A bomba do poço artesiano no local não funciona em decorrência da falta de luz, e o jeito encontrado pelos moradores para beber água tem sido recorrer a uma estreita faixa de água do Rio Anhanduí. A situação completou ontem 120 horas.

Segundo Ademir de Jesus Pereira, 57 anos, na sua casa, a luz e a água continuam em falta e ele tem recorrido ao rio para lavar roupa e buscar água.

“Aqui ainda não voltou a luz. A única árvore que tinha perto da rede caiu e derrubou o poste. Hoje [quarta-feira] levei minha mulher para lavar a roupa lá no rio, porque acabou a luz e não puxa água dos poços", informou Ademir.

"Ainda estamos sem água e temos gado, mas tenho um reservatório para irrigação e, por sorte, ele estava cheio, mas tem gente que até perdeu gado. A prefeitura [de Terenos] comprou dois grupos de geradores para ligar os poços, mas nossa bomba não funcionou, porque é uma bomba mais potente que atende cinco lotes aqui, aí não teve jeito", relatou.

"Estamos nos virando do jeito que dá, ainda bem que tem o córrego”, completou.

De acordo com os moradores, parte do assentamento já tem energia, mas a outra metade continua com o problema, que, na verdade, começou na quinta-feira (14), mas havia sido solucionado horas depois.

“Na quinta-feira de manhã, tinha vindo um temporal, aí, desde quinta a gente está sem luz. Ainda na sexta, 40 minutos antes do temporal, voltou a luz, mas acabou de novo. Aí chegou a energia de volta somente ontem [terça-feira]. Destelhou minha casa, árvores, então [várias caíram]", disse Flávia dos Santos Cabral, 40 anos, que teve a energia restabelecida na madrugada de quarta-feira.

"O pessoal está até hoje cortando tudo, porque derrubou bastante, teve um ou dois vizinhos meus que não tiveram a casa destelhada, mas o restante teve”, completou.

“Ontem, quando voltou [a luz], ficamos igual criança comemorando que a água voltou, não era nem tanto pela luz, mas pela água, foi uma alegria saber que, pelo menos, vamos ter água, porque foi horrível”, completou a moradora, que tem uma filha de três anos.

A sorte dela, porém, não é a mesma de outros moradores, que seguiam sem energia até a tarde de ontem. 

“Está difícil sem água, a sorte é que a gente tinha um pouco ainda na caixa para beber, mas para as vacas não tem, a gente teve que levar elas até o córrego para beber. Estamos fazendo isso todo dia", contou Iracema de Souza, 43 anos, que tem três filhos.

"A Energisa passou aqui ontem, mas só olharam, não falaram nada. A nossa rede vem de Sidrolândia, só ali em cima caíram 12 postes”, completou.

“Estamos tomando banho dentro do córrego. Quem tem poço furado, a prefeitura colocou dois caminhõezinhos com gerador, aí puxa e ajuda, mas quem não tem e depende do poço geral, está tudo sem água, precisa da energia para colocar a bomba e distribuir", disse um morador que preferiu não se identificar.

"Agora a gente está tendo que ir até o córrego pegar água, quem mora perto ainda tem vantagem, eu pego a caminhonete e busco, dou um jeito, mas quem está mais longe está sofrendo mais”, completou.

Para resolver o problema, alguns moradores usaram a criatividade para dar de beber ao gado. O assentado Oziel Messias de Jesus, 47 anos, disse que teve de desmontar o sistema de irrigação para conseguir dar água para os animais.  

“Aqui a gente tem o rio, mas o pessoal que a terra não passa água está sofrendo, eles têm que ir de carro lá buscar. A gente tem uma motobomba a gasolina que bombeia água, aí hoje a gente ligou e acabou e tivemos que ir lá buscar mais. Tem uma senhora que vende galão aqui perto. A motobomba vai muita gasolina, aí, tudo se torna um gasto, um custo”, reclamou o morador.

PREJUÍZOS

Os primeiros impactos da falta de luz foram sentidos nos alimentos, muitas pessoas tiveram de jogar comida fora, comerciantes tiveram prejuízo em produtos e outros usaram a criatividade para não perder o que tinham na geladeira.

“Minha carne, meu frango, perdi tudo. Aí, ontem, minha filha ficou falando que queria comer carne, e a gente não tinha para dar, ela começou a chorar, eu quis morrer. Agora estamos correndo atrás das telhas, porque estamos com medo de outro temporal vir, mas nossa carne a gente teve que jogar tudo, carne de frango, porco”, relatou Flávia dos Santos.

Conforme Rosângela Rodrigues, 43 anos, dona de um mercado no assentamento, ela conseguiu salvar algumas coisas porque tinha um gerador a gasolina, mas os sorvetes todos foram perdidos. “Dois freezers de sorvete que a gente tinha, perdemos, porque gelo não deixa congelado, sorvete não conserva. Hortaliça que a gente tinha aqui, perdemos tudo”.

“O que a gente tinha de lucro, foi o lucro e mais um pouco para conseguirmos pagar. Eu comprei gelo, coloquei tudo dentro de um freezer para não descongelar as coisas. Tenho um gerador pequeno a gasolina, para ajudar – olha o preço da gasolina –, mas deu para manter dois freezers e as lâmpadas, o resto tudo ficou desligado", completou a comerciante.

"Não conseguimos vender nada no cartão, não podia pagar conta, tive que pagar as contas com juros. Água ficou totalmente sem, o pessoal tirou do que não tinha para pagar frete para buscar água para os bichos beberem, porque senão morre de sede", relatou.

"Nossa região aqui está muito castigada, primeiro foi a seca, depois vieram duas geadas seguidas, torrou tudo, ficou tudo na terra, e agora ainda fica sem água, para piorar um pouco mais”, finalizou.

Quem vive da produção de leite também foi afetado. Segundo moradores, alguns jogaram fora o produto, outros tiveram de fazer queijo para não ficar totalmente no prejuízo. 

“O leite estávamos fazendo queijo, hoje veio um caminhão e levou o resto do leite. Aí a carne fiz igual antigamente, frita e coloca no óleo, e a outra fiz carne de sol, a gente tem que se virar”, contou Andreia Maria da Silva, 44 anos.

“Planto hortifrúti aqui, aí eu plantei e veio a geada e queimou. Replantei, veio a seca. E, agora, ia recomeçar tudo de novo, e veio a chuva”, lembrou Oziel sobre as condições climáticas de Mato Grosso do Sul neste ano, em que, em diferença de poucos meses, foram registrados recordes de temperaturas máximas e mínimas.  

Algumas pessoas, conforme moradores, conseguiram driblar os problemas levando os freezers para cidades vizinhas onde têm casa ou mesmo mudando de local no próprio assentamento, como fez Jaime Viana Moreira, 45 anos.

“Nossas coisas a gente acabou de levar para casa, onde reativou a luz, porque eles estão priorizando onde tem posto de saúde e escola. Aí, agora a gente está levando as carnes para lá”, disse.

RESPOSTA

Em contato com a Energisa, a empresa relatou que mais de 16 equipes estão na área rural de Sidrolândia para solucionar a falta do fornecimento de energia: 

“Em razão da dificuldade de acesso pelas equipes e da quantidade de defeitos identificados, os reparos são de altíssima complexidade e, por isso, levam mais tempo, como, por exemplo, no Assentamento Santa Mônica. Equipes da Energisa estão no local”.

“A distribuidora reitera que as equipes seguiram trabalhando – de forma ininterrupta – durante todos esses dias para reduzir o número de solicitações”, completou a concessionária, que relatou que, até a tarde de ontem, a quantidade de clientes com a situação normalizada após o impacto do temporal alcançava 98%. 

“Por hora, a distribuidora restabeleceu 15 vezes mais clientes do que em dias normais de serviço”.

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