Atendimento médico com equipes qualificadas e o acompanhamento da família, esse é o conceito do Serviço de Atenção Domiciliar (SAD) – Melhor em Casa, do Ministério da Saúde, que tem como objetivo contribuir para que pacientes que já estão recuperados ou em fase de recuperação deixem os leitos de hospitais e continuem o tratamento em casa.
Em Campo Grande, cinco equipes são responsáveis pelo serviço, que teve grande aumento de demanda por causa da Covid-19 e contribuiu para conter a lotação dos hospitais, principalmente com o tratamento de pacientes com sequelas da doença.
De acordo com Alexandra Casarim, coordenadora de duas equipes do SAD que atuam no Hospital Regional de Mato Grosso do Sul e que atendem pacientes das regiões Anhanduizinho e Lagoa, dos atendimentos feitos mensalmente, 40% dos pacientes são do pós-Covid-19 de média e alta complexidade.
“O foco é a desospitalização, conseguir tirar o paciente do hospital o mais precoce possível e dar continuidade ao tratamento no domicílio e, se melhorar, passar para atenção básica”, explicou Casarim.
Segundo a médica, por mês, são atendidas pelas equipes cerca de 60 a 70 pessoas, mas a capacidade é de cerca de 650 atendimentos de todos os tipos em 30 dias, tanto adulto quanto infantil.
As equipes são formadas por dois clínicos gerais, um pediatra, dois enfermeiros, seis técnicos de enfermagem, dois fisioterapeutas, dois terapeutas ocupacionais, um psicólogo e um assistente social.
“Nosso foco são os pacientes que precisem de reabilitação, alguns têm sequelas permanentes, porque tiveram uma parada respiratória e não têm mais possibilidade de recuperação total, outros não estão tão debilitados, não saíram totalmente acamados, mas precisam de cuidados”, afirmou a médica.
Em casos mais graves, o grupo oferece o aporte de equipamentos, quando necessário, como respiradores para pacientes que ainda precisam ficar na máquina, e a visita das equipes é feita conforme a necessidade do paciente.
Segundo Casarim, nas últimas semanas, as equipes deram alta para seis pacientes de Covid-19. Alguns poderiam continuar o tratamento no Centro de Reabilitação montado pela Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), onde só atendem pacientes sem feridas.
NOVOS PACIENTES
Segundo a coordenadora, a maior dificuldade é fazer com que os pacientes cheguem até as equipes, já que cada uma tem função de cobrir uma área de 100 mil pessoas.
“O Regional fez trabalho de gestão de alta dos seus pacientes, o médico indica o paciente para o serviço e eles são encaminhados, porém, os que estão em outros hospitais têm dificuldade de saber desse serviço e às vezes chegam seis meses depois”, conta.
Ainda conforme e médica, em qualquer Unidade de Pronto Atendimento (UPA) ou Unidade Básica de Saúde (UBS) há formulários para a solicitação do serviço. Depois de preenchido, o documento deve ser entregue na Secretaria Municipal de Saúde (Sesau), que vai distribuir o caso de acordo com a região onde a pessoa reside.
“Há mães que ficam nos hospitais meses com crianças, às vezes sem necessidade. A Covid-19 só mostrou uma coisa que era crônica, a falta de leitos, mas em uma magnitude maior porque houve muita falta de leito e tem paciente que tem condição de sair do hospital, mas fica lá para receber antibiótico. Essa desospitalização gera vários ganhos para o paciente, além de redução de ocupação nas unidades”, avalia a médica.
BENEFICIADO
Um dos atendidos pelo grupo é o soldador Jackson Matheus de Oliveira, 39 anos, que está há mais de 30 dias em casa, depois de ter ficado em estado gravíssimo no hospital em decorrência da Covid-19. Hoje ele se recupera com o apoio da família e sem riscos de pegar uma nova infecção.
“Mudou muito [estar em casa], a melhora é sem comparação e o acompanhamento do pessoal do SAD ajuda muito. Com a família tudo dá diferença. Foi muito bom reencontrar a família toda, reencontrar meus filhos, graças a Deus estou aqui com eles”, declarou Oliveira.
O soldador conta que não pensou que fosse pegar a doença, mas, além de contraí-la junto de toda a família, precisou passar dias no hospital, onde ficou intubado e teve de passar por uma cirurgia na barriga.
“Foi muito tempo dentro do hospital, mas, graças a Deus, a gente venceu. A recuperação está fluindo e o pessoal é muito atencioso, dão conselho, conversam”, completou.
“Foi muito difícil, uma realidade que jamais imaginaria, foram dias terríveis, mas a gente se manteve muito unido, nossos familiares nos apoiaram muito. Minha filha foi meu braço direito e com fé em Deus pudemos trazer ele de volta”, contou a esposa do paciente, Sandra Leite, 33 anos, que é atendente de telemarketing e conseguiu que seu emprego a colocasse em home-office para cuidar do marido.
Para o enfermeiro Thiago Bueno Roberto, 33 anos, que visita Jackson para fazer os curativos, o ambiente hospitalar é agressivo para o paciente e para a família. “Até para o conforto dele é melhor, o desgaste físico, emocional de ver ele ali, outros pacientes sofrendo, pensando que pode ser que aconteça com eles, então em casa é muito melhor”.
O projeto tem 11 anos e mais de mil equipes por todo o Brasil. Em Campo Grande, as cinco equipes podem atender até 500 mil pessoas e seriam necessárias outras quatro para dar conta de toda a população.