Dezoito anos depois de sair de Campo Grande, onde deixou a família para trabalhar numa cidade de Mato Grosso, o pedreiro Paulo Roberto Gonçalves, 41, vive uma situação macabra já há um mês, ao descobrir que, em janeiro de 2012, há quase uma década, morreu assassinado em Sorriso, município de MT que garante nunca ter morado.
O caso de Gonçalves foi parar na Defensoria Pública que, agora, tenta provar que o pedreiro está vivíssimo.
O histórico do pedreiro que morreu, mas está vivo, foi revelado nesta sexta-feira (17) num texto publicado pela assessoria de imprensa da Defensoria Pública de Mato Grosso.
Diz o comunicado que Gonçalves percebeu que havia algo de errado com seu CPF ao ir até uma loja de autopeças em outubro passado, mas não conseguir efetuar a compra, que seria à prazo.
Retornando para a casa, recorreu a um aplicativo no seu celular para fazer uma consulta e, para sua surpresa, constava que o titular do CPF, ele, no caso, tinha morrido.
“Primeiramente, senti medo. A gente não sabe quem errou. Imagine só, estar andando pela rua, ser parado por uma blitz, o policial pede a documentação, eu poderia até ser preso. Já vi casos parecidos”, disse o pedreiro à assessoria da DP de MT.
Nascido em Diadema, região metropolitana de São Paulo, ele afirmou já ter morado em Presidente Prudente-SP, Campo Grande e Coxim, em MS, e reside em Campo Verde desde 2003.
“Minha família mora em Campo Grande. Vou sempre para Cuiabá realizar serviços, já fui a Diamantino, mas nunca estive em Sorriso”, contou.
Paulo, após saber do CPF cancelado, foi a uma delegacia para tentar esclarecer o caso e foi informado pela Polícia Civil que o homem enterrado com seu nome foi vítima de um homicídio.
O morto seria um ladrão, que teria tentado assaltar um estabelecimento comercial, entrou em luta corporal com um segurança e, após ter sido golpeado com um capacete, foi asfixiado até a morte, informou a assessoria.
O vigilante chegou a ser preso, mas depois solto, pois o juiz considerou que ele agiu em legítima defesa – o caso nem chegou a ir a júri.
Consta na certidão de óbito, em nome de Paulo Roberto Gonçalves, que ocorreu um reconhecimento de pessoa, expedido pela Polícia Judiciária Civil de Sorriso.
“Isso é muito estranho. Quem fez esse reconhecimento? Ninguém da minha família reconheceu o corpo”, questionou o pedreiro
Mesmo com tamanha confusão com seu nome, o pedreiro ainda pensa no homem enterrado como se fosse ele em Sorriso.
“Eu me sinto injustiçado e a pessoa que está lá enterrada também foi injustiçada. Atrás dessa pessoa tem uma mãe, uma família”, disse.
De 2012 para cá, quase duas décadas, o pedreiro disse nunca precisar do CPF, já que é autônomo e sempre recebe em dinheiro pelo trabalho.
E quem mexe com os ganhos é sempre sua mulher, que tem conta em banco e gerência as finanças. Gonçalves têm dois filhos, um deles inclusive nasceu em 2019, quando o pai supostamente já estaria morto, diz a assessoria.
Além de não poder fazer compras a prazo, Paulo também não conseguiu ainda se vacinar contra a Covid e realizar uma cirurgia de hérnia pelo Sistema Único de Saúde (SUS), em decorrência do problema com seu CPF.
Paulo chegou a entrar em contato com um advogado particular, mas percebeu não teria condições de arcar com os honorários. “O advogado cobrou R$ 14 mil, mas eu não teria como pagar. Sou autônomo, tenho que pagar aluguel, conta de água, luz etc.”, contou.
Diante disso, procurou o Núcleo de Campo Verde da Defensoria Pública. “Graças a Deus, a Defensoria Pública atuou de forma rápida. Na segunda-feira, me chamaram e já tinha a ação na mão”, narrou.
Segundo a defensora pública Tânia Vizeu, que atua no caso, a Instituição foi fundamental para garantir o acesso à Justiça a Paulo, que está juridicamente morto e, por isso, não consegue se vacinar, abrir conta em banco, realizar uma cirurgia etc.
“A Defensoria Pública prestou, de forma imediata, a assistência jurídica, já ingressou com a ação para anular a certidão de óbito e restabelecer a personalidade civil dele. Queremos fazer com que ele possa acessar plenamente seus direitos, ser cidadão de novo”, afirmou a defensora.
Paralelamente, a Defensoria Pública notificou o Ministério Público de Sorriso para averiguar quem está morto e foi sepultado no lugar dele.