Para os moradores de Campo Grande, em razão da falta de fiscalização e da ausência de ações educativas, o trânsito está abandonado.
Conforme a Agência Municipal de Transporte e Trânsito (Agetran), apenas nos primeiros dois meses deste ano, 12 pessoas já morreram em acidentes no município, sendo oito motociclistas, três pedestres e um ciclista.
Dados da Agetran apontam, ainda, que o número de acidentes no mês de janeiro aumentou nos últimos dois anos. Em 2020, houve 629 acidentes no trânsito da Capital, em janeiro de 2021, a cidade registrou 927.
Em relação às mortes, em 2020, 77 pessoas perderam a vida em acidentes envolvendo veículos em Campo Grande, em 2021, foram 75.
Segundo levantamento do Batalhão de Polícia Militar de Trânsito (BPMTran), em 2020 e 2021, a Avenida Afonso Pena, que tem 7,8 quilômetros de extensão, foi a mais perigosa de Campo Grande.
A via ficou em primeiro lugar no número de acidentes registrados no ano inteiro. Em 2020, foram 351 ocorrências, ao passo que em 2021 foram registrados 383 incidentes.
Ainda segundo a pesquisa, sexta-feira é o dia da semana em que mais ocorreram acidentes, e o horário mais complicado para o trânsito da cidade é após as 17h.
“Não vemos fiscalizações pelas ruas, guardas orientando e autuando motoristas. A simples presença já faria toda diferença, mas não é isso que encontramos quando saímos para andar pela cidade: é um lugar livre para atitudes imprudentes dos motoristas, e isso me assusta, porque a gente vê tanto acidente”, disse a jornalista aposentada de 87 anos, Maria Isa.
O professor especialista em trânsito Carlos Alberto Pereira explicou que a presença de fiscalização no trânsito da Capital teria forte impacto para que acidentes fossem evitados.
“Quando o infrator percebe a presença de um agente e entende que está sendo monitorado, ele passa a agir de forma diferente, pois percebe que pode ser autuado. Com isso, a fiscalização ajudaria a dar a sensação de mais conforto à população de Campo Grande”, esclareceu.
Além disso, Pereira ressaltou que ações permanentes de educação no trânsito são necessárias para que seja possível evitar acidentes.
“Ações de educação no trânsito devem ser permanentes e acontecer em universidades, escolas, ruas, bares e outros lugares. O ideal é que essas campanhas sejam monitoradas, para que saibamos o que está dando certo”, disse o especialista.
Bene Farias, de 78 anos, relatou à reportagem do Correio do Estado que não se sente seguro andando por Campo Grande. Segundo o ex-caminhoneiro, de todos os lugares que passou pelo Brasil, o trânsito da Capital está entre os piores em nível de segurança para os motoristas, os ciclistas e os pedestres.
“Fui caminhoneiro a minha vida toda, andei por todo o País e nunca encontrei um lugar com um trânsito tão ruim quanto o de Campo Grande. Aqui é péssimo, os motoristas não respeitam, não há fiscalização, é horrível”, destacou Farias.
TRAGÉDIA
A ex-secretária de Estado de Educação Leocádia Aglaé Petry Leme, de 73 anos, morreu na noite de domingo, na Santa Casa de Campo Grande, após ser atropelada por uma moto na Rua 25 de Dezembro, região central da Capital.
O motociclista, de 24 anos, contou aos policiais que descia a rua quando viu Leocádia atravessando. Ele buzinou e desviou, mas ela acabou desviando no mesmo sentido e foi atropelada.
Segundo a polícia, o motociclista fez teste do bafômetro e não estava alcoolizado, mas, durante consulta no sistema da corporação, foi descoberto que o jovem não tinha Carteira Nacional de Habilitação (CNH). Ele foi autuado e conduzido para a Depac Centro.
De acordo com Carlos Alberto Pereira, fiscalizações mais ativas são um recurso necessário para evitar tragédias como a da professora.
“A fiscalização passiva acontece com o monitoramento de velocidade por meio de radares, no entanto, esta medida pode gerar uma redução só das multas por velocidade, e não de acidentes”, afirmou.
Conforme o especialista, os monitores de velocidade são ineficazes para as demais partes da via, isto porque o motorista volta a acelerar quando está longe dos radares.
Balanço de acidentes entre 2020 e 2022
Nos últimos três anos, Campo Grande registrou a morte de 164 pessoas no trânsito, conforme dados fornecidos pela Agência Municipal de Transporte e Trânsito (Agetran).
Em 2020, foram 77 vítimas fatais em acidentes de trânsito na Capital – 53 motociclistas, nove pedestres, seis ciclistas, seis passageiros de veículos e três condutores.
Em 2021, foram registradas 75 mortes, sendo 49 motociclistas, 10 condutores, oito pedestres, cinco ciclistas e três passageiros de veículos.
Em 2022, até ontem, foram registradas 12 mortes em decorrência de acidentes de trânsito no município, sendo oito motociclistas, três pedestres e um ciclista.