O ex-prefeito de Campo Grande Marcos Trad (PSD) é o entrevistado desta semana do Correio do Estado. Na conversa, o político falou sobre os quase cinco anos e meio que esteve à frente do Executivo da capital sul-mato-grossense.
Trad deixou o cargo no início de abril para cuidar de sua pré-candidatura ao governo de Mato Grosso do Sul.
Entre seus legados, ele cita ter deixado em caixa R$ 337 milhões, a previsão já para o pagamento do 13º salário dos servidores municipais e também o investimento de cerca de R$ 1,5 bilhão em obras, que já estão em andamento em Campo Grande.
Durante esta fase, Trad afirmou que tem percorrido várias cidades para ouvir a população e seus pedidos para o futuro.
Em nível nacional, como o PSD não deve ter um candidato próprio, o pré-candidato afirmou que seu partido deve deixar os candidatos livres para apoiar ou não algum presidenciável.
Em seu caso, ele afirmou que não deve pender para nenhum dos lados e disse que ora pelos dois candidatos que estão em primeiro e segundo nas pesquisas de intenção de voto, Luís Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL), respectivamente.
“Eu torço para o Bolsonaro, torço para o Lula, oro para os dois e aquele que a população escolher assim será”, declarou Marcos Trad ao Correio do Estado.
Marcos Marcello Trad - Perfil
Nascido em 1964, em Campo Grande, Marcos Marcello Trad é bacharel em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), atuou na OAB-MS como conselheiro e de presidente da Comissão de Ética e Disciplina. Foi vereador, deputado estadual e prefeito da Capital de 2017 a abril de 2022.
O senhor deixou a prefeitura no começo de abril. Como chegou à conclusão de que deveria renunciar para se candidatar?
Com muita reflexão e bastante oração. Com as pesquisas qualitativas, [decidi,] pela cidade estar em ordem, por estar o caixa com R$ 337 milhões, pelo 13º já estar provisionado, com R$ 1,5 bilhão já garantidos e projetos aprovados.
Aonde você for em Campo Grande vai ver obras sendo feitas. Aqui na frente [Avenida Calógeras] tem uma. Não tinha drenagem aqui. Uma Capital com um milhão de habitantes, com 122 anos, e a Calógeras não tinha drenagem. É por isso que quando chovia a água subia.
E as fezes? Estão indo para onde? As pessoas não imaginam, quando essa obra traz um certo desconforto, o tamanho do benefício que ela vai trazer.
Tudo isso me fez ter a certeza, e jamais ter o receio ou o temor de que futuramente a Adriane [Lopes] possa fazer A, B, C, D ou E. A manutenção da nossa equipe.
Outro ponto que me despertou a atenção: 48% do que nós prometemos na nossa reeleição já foram executados, faltam apenas 52%, ela vai ter quase três anos para fazer. Se em um ano a nossa equipe fez 48%, mantendo a equipe, com toda certeza ela vai chegar folgada aos 100%. Aliás, foi o que fizemos na primeira administração, por isso a nossa reeleição já no primeiro turno.
Você vê que uma gestão agrada, se o gestor está sendo competitivo e bom, entre uma votação e outra. Se você pegar a votação do Reinaldo [Azambuja], da primeira para a segunda caiu; a nossa aumentou, nisso você vê o grau de aprovação.
Se você pegar as três eleições suplementares de Mato Grosso do Sul, você vai ver que o PSDB perdeu nas três, e com força total deles nos candidatos. Exauriu, eles têm que entender que exauriu.
O senhor chegou a mencionar o nome de Ricardo Ayache como seu vice. Hoje, como está esta situação? Há outro nome para formar a chapa com o senhor?
Tenho, sim, [outro nome para o vice,] embora não seja a minha maior preocupação. Minha maior preocupação é a elaboração do programa de governo.
Nós dividimos o Estado em nove regiões, fizemos cinco eixos temáticos, como eu fiz em 2016. Estou reunindo as pessoas, cada município tem uma particularidade, cada município tem uma característica diferenciada.
Mato Grosso do Sul é muito longínquo territorialmente, tem municípios maiores em extensão do que a própria Capital. Se você for em Corumbá, por exemplo, é maior a extensão. Lá as pessoas, de peculiaridade, reclamam que “o governo matou o turismo nosso, levou tudo para Bonito.
Aqui a gente tinha festivais, tinha programas de pesca, tinha ajuda do turismo fotográfico, tudo foi cerceado e levado para um município dos 79”. Lá eles reclamam de construção de casas, reclamam que, por a cidade ser muito plana, quando chove não tem drenagem nenhuma e não tem nenhum tipo de ajuda.
Reclamam que sempre foram usados na eleição e as pessoas caem fora. Vaga no mercado de trabalho nem se fala, capacitação, menos ainda. Reclamam do monopólio da Andorinha, que fazem de gato e sapato a população. Então, essas são as particularidades.
Bonito vê com bons olhos os eventos, entende que deveria ser mais. Todavia, há uma preocupação muito grande com o meio ambiente, que isso pode trazer consequências negativas para o próprio turismo daqui a uma década.
Estão machucando afluentes, estão poluindo áreas que eram absolutamente locais de visitas com águas transparentes.
Edificações bem próximas aos leitos, às margens, às nascentes, sem obediência a áreas de preservação ambiental. Uma preocupação enorme com o mercado de trabalho também, porque o ponto deles mesmo é o turismo. Reclamam bastante da tecnologia, que não teve investimento nenhum nas chamadas “smart cities”.
Você vai, por exemplo, para Naviraí. Em Naviraí eles falam que eram a quinta maior cidade de Mato Grosso do Sul. Nesses últimos oito anos, diminuiu a população, as pessoas estão indo embora de Naviraí, hoje ela é a sétima.
Cada lugar é uma reclamação, mas uma é unanimidade em todas: ausência do governo. “O governador não esteve fisicamente aqui, pode ter andado alguma coisa às vésperas da eleição, mas durante os oito anos ele não andou aqui”.
Por isso é que com pouca imagem e experiência na política o juiz Odilon ganhou em vários municípios do interior administrados por eles.
Como ficará o palanque nacional do PSD em Campo Grande? Quem o senhor deve apoiar para a Presidência?
O PSD busca ainda uma terceira via, estão ainda conversando, tentaram Rodrigo Pacheco, tentaram Eduardo Leite. Caso não tenha [escolha], eles vão nos deixar independentes. Sendo independentes, eu sou uma pessoa conhecida politicamente que não sou extremista, não sou radical e transito tanto na direita quanto na esquerda e no centro. Em 2018, por exemplo, na minha reeleição, o PCdoB e o Democratas me apoiaram. Então, se for Mato Grosso do Sul, para mim está bom.
E eu não acredito que nenhum presidente da República vai querer prejudicar um governador que não tenha contrariado, atacado ou agredido. Eu torço para o Bolsonaro, torço para o Lula, oro para os dois, e aquele que a população escolher assim será.
Eu vou deixar com que o próprio eleitor escolha, até porque o Estado precisa do presidente do Brasil, e não do presidente de um partido.
A prefeita Adriane vai completar na próxima semana um mês à frente da administração municipal. Como o senhor espera que seja o mandato dela no cargo?
Muitas pessoas têm me encontrado na rua me chamando ainda de prefeito e falando “eu nem sabia”. Transcorreu tão normalmente, sem escândalo, sem espalhafato, a administração tudo em ordem, todos os secretários trabalhando em reuniões. A Adriane é supercapacitada, qualificada, vai dar sequência normal.
Campo Grande tem diversos canteiros de obras em andamento, mas alguns parados. Como o senhor vê essa quantidade de obras ainda por fazer?
Todas elas estão em andamento. O que é de recurso nosso, assinado e aprovado, está em andamento. Agora, se você me perguntar: “E a Norte-Sul?”. A Norte-Sul [Avenida Ernesto Geisel] era dinheiro do PAC Mobilidade da Dilma [Roussef], que o [Michel] Temer avalizou e que o Bolsonaro cindiu.
O PAC da Ernesto Geisel era em três etapas: a primeira etapa toda ela foi feita; e a segunda e a terceira etapa, agora, o Jair Bolsonaro suspendeu. Por quê? Porque o dinheiro é todinho do Programa de Aceleração do Crescimento da Dilma e do Temer. Tem dinheiro do município para fazer ali? Não tem.
Ali é uma obra caríssima. Para fazer do município, vai fazer aquelas gambiarras, que colocavam um arame de galinheiro e umas pedrinhas dentro e que na primeira chuva cai tudo. Nós não, foi feita uma barreira muito sólida ali, em uma licitação muito correta feita pelo [Alcides] Bernal.
Não tem o que se reclamar das empresas que venceram, todas aprovadas, só que as empresas de fora, em razão da tecnologia de engenharia utilizada, não suportaram os atrasos de pagamento e entregaram. Demorava seis meses para receber o já executado.
Que balanço o senhor faz da sua gestão à frente da prefeitura durante esses cinco anos e meio?
Quem tem que fazer esse balanço é a população. Nós fizemos quatro anos e colocamos o nosso nome: “Devemos continuar?”.
Você viu o resultado. Você tira os votos que foram invalidados, a gente chegou a 60?% no primeiro turno. Nós não perdemos em nenhuma sessão da nossa cidade. A população falou que a gente foi bem. Mas vamos imaginar que a população [não tivesse dito isso] naquele momento.
Nós fomos bem na Saúde? Fomos, e eu lhe provo. Nós entregamos nove novos postos de saúde e três clínicas da família. Nós saímos do 27º lugar entre as capitais em atenção primária. Hoje, nós somos a sétima colocada – 27ª é a última. Pois bem, tinha 27% de cobertura, hoje nós temos 77%.
Eu recebi a saúde com 16% de estoque de medicamento nas farmácias das nossas unidades, hoje nós temos 89%. Fizemos o maior concurso da saúde, mais de mil agentes assumiram, entre os quais, quase 68 especialistas. Reformamos 32 das 77 unidades de saúde.
Na pandemia, saímos de 116 leitos de UTI para 355. O dinheiro enviado pelo governo federal, nós tiramos 10 de transparência pública. Não teve desvio nem procedimento administrativo, como teve o hospital de campanha do Albano Franco, que não utilizaram e o dinheiro estão respondendo para que lado foi.
Vacinação foi exemplo em nível nacional. Mato Grosso do Sul era exemplo porque Campo Grande dava a base. Campo Grande é quase um terço, mais que um terço do Estado.
Na Educação, eu mostro. Nunca se entregou em cinco anos seguidos uniforme e kit escolar no primeiro dia de aula. Não rompemos nenhum salário, não diminuímos entre efetivo e convocado.
O Estado diminuiu em 30% o salário dos convocados. Não mandei ninguém embora durante a pandemia, meus alunos tiveram aula. Eu peguei a Reme [Rede Municipal de Ensino] com 88 mil alunos, hoje, estamos em 110 mil alunos. Inauguramos várias escolas.
Das 16 deixadas na gestão passada, nove já foram entregues e três serão agora até o fim deste ano. E até o fim de 2024, todas serão entregue. Entregamos 157 mil merendas ao dia para 110 mil crianças, nunca tivemos nenhuma greve. A educação teve avanço.
Vamos na área da pavimentação asfáltica. Isso é indubitável, quase 400 km de asfalto novo. Nem em tempos áureos conseguiram fazer isso aqui, e olha que nós enfrentamos a troca de um presidente da República e uma pandemia em que o planeta todo foi surpreendido.
Em tudo isso nós tivemos avanço, basta olhar.