Com os casos de Covid-19 estabilizados há mais de um mês em Campo Grande, o secretário municipal de Saúde, José Mauro Filho, afirma que, atualmente, um dos principais problemas da pandemia é o legado de sequelas deixado pela doença, principalmente relacionado aos transtornos mentais.
O secretário afirma que há vários relatos de casos de depressão, ansiedade e estresse relacionados à pandemia.
"Se me perguntar qual o maior problema do Covid hoje, é o legado psicossocial das pessoas", disse ao Correio do Estado.
"Mas não é só pelo fato de ter tido a doença e ficou com depressão, ou o medo da doença, mas pelo fato de lutar e não conseguir trabalho e não levar uma comida para casa, isso também dá depressão, isso dá um relacionamento familiar conturbado, as pessoas se separam, isso eleva o índice de depressão, não é apenas uma questão sanitária, é uma questão social", acrescentou José Mauro Filho.
O secretário ressaltou que a queda dos casos é uma tendência natural, mas que a pandemia ainda não acabou e exige atenção.
Ele citou como exemplo a obrigatoriedade de máscaras em alguns locais, como transporte público e unidades de saúde, que ainda não há previsão da liberação do uso do item.
"Uma coisa que o Covid ensinou a gente é ser um pouco mais coerente, por exemplo, quando a gente fala das máscaras nas unidades de saúde a gente tem que supor que nas unidades de saúde as pessoas estão com debilidade do seu sistema imune e não tem opção de distanciamento, assim como acontece nos ônibus, nesse momento eu acho que é prudência", explicou.
José Mauro ressaltou também que as pessoas que ainda não se vacinaram ou completaram o esquema vacinal, busque a imunização.
"A vacina já se demonstrou eficaz, é por isso que podemos ver eventos com aglomeração e não se observa aumento de contaminação, já estamos sem máscara há uns meses e isso não repercutiu".
Depressão
Segundo levantamento divulgado no fim de abril, o percentual de pessoas diagnosticadas com depressão no Brasil aumentou mais de 40% durante a pandemia de Covid-19, passando de 9,6% no período anterior à crise sanitária, para 13,5% no primeiro trimestre deste ano.
Os dados são do Inquérito Telefônico de Fatores de Risco para Doenças Crônicas não Transmissíveis em Tempos de Pandemia (Covitel), trabalho desenvolvido pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), em parceria com a organização não governamental Vital Strategies.
A prevalência da depressão é maior em mulheres, sendo 18,8% neste ano e 13,5% antes da pandemia. Entre as pessoas brancas, 16,5% foram diagnosticadas com o transtorno, número que era de 11% antes da crise sanitária.
Entre a população negra, o percentual de pessoas diagnosticadas com depressão passou de 8,8% para 11,8%.
A assessora técnica da Vital Strategies, Luciana Sardinha, afirmou, no entanto, que os dados tratam apenas de pessoas que conseguiram um diagnóstico para o problema, não necessariamente todas atingidas pela depressão.
Segundo o professor, as populações mais vulneráveis enfrentam dificuldades para acessar os sistemas de saúde, que vão desde problemas de deslocamento até questões como a discriminação. Estes grupos também costumam ter, de acordo com o pesquisador, "piores indicadores em saúde".