Cidades

JARDIM COLORADO

Mesmo com incerteza da mudança, famílias mantêm esperança viva

Prefeitura volta atrás e diz que ainda não há data para reassentamento de moradores da favela Lagoa

A incerteza sobre o dia de amanhã é uma constante na vida dos moradores da comunidade Lagoa, localizada no Bairro Jardim Colorado, em Campo Grande. 

Na semana passada, a informação repassada para quem lá reside e para a reportagem era de que 20 famílias seriam reassentadas a partir de hoje. Entretanto, ontem a afirmação mudou, e a Agência Municipal de Habitação e Assuntos Fundiários (Amhasf) disse que ainda não há uma data.

Apesar da demora e da pouca informação que os moradores dizem receber da prefeitura, a esperança de finalmente sair da favela para um bairro com energia elétrica, água encanada e coleta de lixo é mantida por quem lá reside.

O único filho de Rosimeire Rodrigues da Paz, de 40 anos, praticamente só conheceu a vida na favela, isso porque ele chegou ao local com apenas 2 anos e, hoje, já tem 11 anos.

“Eu me mudei para cá quando meu filho tinha 2 anos, meu menino está com 11 anos agora, vai fazer 10 anos”, lembra a dona de casa.

“Eu não tinha onde morar, não tinha condições de pagar aluguel e, por causa do meu problema de saúde, não aguento e não posso trabalhar, estou desempregada”, completou Rosimeire.

Segundo a moradora, por várias vezes já houve a promessa de que eles seriam retirados do terreno, porém, até hoje nenhuma delas foi cumprida. Mesmo assim, desta vez ela espera que seja diferente.

“Estão falando que vão tirar a gente. Eu tenho essa expectativa, peço a Deus que sim, nossas casas já estão todas marcadas, a Emha [que teve o nome mudado para Amhasf] já veio marcar nossa casa para tirar nós daqui, para dar um terreno para nós”, disse durante a conversa. Ela mora em um barraco com a mãe idosa, o filho e o marido.

A expectativa da mudança é compartilhada pela líder da comunidade, Rosana do Amaral Molas, 44 anos, que mora no local há quatro anos.

“Estamos na expectativa de mudar daqui, nem tenho dormido direito. Não queremos luxo, apenas uma moradia digna para todas as famílias que moram aqui”, afirmou a líder, que também está desempregada por ter uma doença autoimune. Ela conta que não pode mais trabalhar por conta da fibromialgia e, sem condições de pagar aluguel, foi morar na comunidade com seu marido, que trabalha com reciclagem. “Tenho que sair daqui por conta da minha saúde. Como aqui é úmido, é bem difícil por causa da bronquite”, acrescentou.

CENÁRIO

Por ser uma Área de Preservação Permanente (APP), a região não tem passagem de tubulação de água e as famílias tentam se virar para conseguir esse bem vital, alguns, como Rosimeire, pagaram para furar um poço artesiano, mas muitas das pessoas não tiveram a mesma condição.

Como sem água não é possível viver, os moradores encontraram uma maneira de ter acesso, entretanto, ela não é potável.

Isso porque eles retiram a água da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) da Águas Guariroba, de um cano com líquido que vem da drenagem de águas pluviais.

A concessionária, por sua vez, não pode conceder o benefício aos moradores porque o contrato assinado com a prefeitura prevê que esse tipo de instalação deve ser feito somente para locais em que a pessoa apresente a documentação de posse.

Além da falta de água, a iluminação da comunidade é precária, já que não existem poste nas ruas dali.

A sujeira também incomoda os moradores. Eles não fazem parte da rota da CG Solurb, concessionária de recolhimento de lixo. Isso pelo mesmo motivo que impede a concessão de água. Os moradores não pagam impostos para estar ali, portanto, pelas regras da administração, não devem receber este benefício.

A falta total de saneamento básico na comunidade já foi alvo de inúmeras matérias do Correio do Estado, que mostra a situação do local desde o ano passado.

AMHASF

Depois de afirmar à reportagem que a transferência ocorreria nesta sexta, o diretor social de Contratos, Administração e Finanças da Amhasf, Cláudio Marques Costa Júnior, declarou que o que será feito hoje será uma reunião com os moradores.

O encontro será para definir quais as 20 famílias que vão primeiro para o reassentamento. Só depois, quando houver uma estrutura adequada, elas serão levadas.

“É ruim ficar nessa indefinição porque as famílias precisam se organizar para construir suas casas no novo local. Porque não adianta irmos para lá e continuarmos morando em barracos”, disse Rosana.

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