Cidades

entrevista

"Precisamos aproveitar este momento, o Pantanal está em grande evidência"

Presidente da Movimenta Pantanal é o entrevistado desta semana do Correio do Estado; Alan fala sobre o trabalho feito para transformar a região em um ativo econômico de Mato Grosso do Sul

Cauê Reis

25/03/2023 - 08h30

Um grupo que reúne empresários de pequeno, médio e grande porte, representantes de governos municipais e produtores rurais procura desenvolver um trabalho coordenado para fazer com que o território do Pantanal seja utilizado como um verdadeiro ativo ambiental, econômico e social de Mato Grosso do Sul. 

O bioma e os municípios inseridos no Pantanal talvez nunca estiveram tão em evidência de forma global como agora. Em 2020, os incêndios catastróficos colocaram o bioma na preocupação mundial. 

Depois desse período de estiagem extrema e de fogo, diferentes setores envolvidos com o Pantanal começaram a se articular para buscar desenvolvimento sustentável e, ao mesmo tempo, valorizar a cultura de pertencimento.

Nessa esteira, surgiu a associação Movimenta Pantanal, a partir de um programa que o Sebrae-MS promoveu com lideranças de Mato Grosso do Sul.

O presidente do grupo é o empresário Alan Eduardo Striquer, 44 anos, que é natural do Paraná e veio para Mato Grosso do Sul ainda pequeno. A base de seus negócios como empresário está em Rio Verde de MT.

“Apesar de termos pessoas de visão e muitas lideranças empenhadas, há muito trabalho a ser feito, por isso nos reunimos. Temos muitos sonhos e projetos, queremos um Pantanal melhor”, defende.
Confira a entrevista.

 
Como surgiu a Movimenta Pantanal e quem a integra?

A Movimenta Pantanal é uma associação que reúne lideranças do território do Pantanal. São pessoas de diversos segmentos de atuação, como cultura, turismo, comércio/serviços, indústria, meio ambiente e sustentabilidade.

A instituição reúne pessoas que, em suas áreas de atuação, pensam no desenvolvimento social, econômico e humano de maneira sistêmica, respeitando e preservando o Pantanal como um bem comum.

[A associação] Surgiu a partir do Projeto Líder, do Sebrae-MS, que reuniu as lideranças que compõem a Movimenta atualmente. Os membros foram identificados pela instituição e puderam se reunir a partir de suas similaridades vocacionais. 

O grupo foi convidado a instituir um projeto cujo ponto focal foi desde o início do Pantanal e todos os municípios que compõem o território.

Durante esse programa, debatemos oportunidades e ameaças pertinentes ao Pantanal, sempre buscando torná-lo um lugar ainda melhor, mais sustentável e com novas oportunidades de negócio para a sociedade. 

Esse grupo se reuniu e deu início à Agência de Desenvolvimento Regional Movimenta Pantanal [Movimenta Pantanal], que abriga diferentes entidades e pessoas que compartilham da ideologia de ver um pantanal ainda melhor.

Que impacto ela tem no âmbito econômico, social e cultural para o território e o Estado?

A cultura de um povo é o que realmente o diferencia de outras comunidades; desta forma, buscamos despertar em nossa região o sentimento de pertencimento ao Pantanal, mantendo vivos os hábitos e os costumes do homem pantaneiro.

Isso por si só já tem um grande valor social e cultural, mas trabalhamos buscando oportunidades de transformar em negócio, atraindo investimentos e fortalecendo a economia local.

O turismo é, sem dúvidas, uma forma de geração e distribuição de renda em nossa sociedade, movimentando uma cadeia enorme de negócios, desde as comunidades ribeirinhas e artesãos até as grandes redes de transporte e hotelaria.

As fazendas pantaneiras e as que ficam à sua margem, no planalto, têm beleza exuberante, em função do bioma e de sua geografia, isso permite utilizar esse ativo para a prática de outra atividade econômica além das predominantes pecuária e agricultura.

O turismo, um segmento tão lucrativo hoje em dia, além de ser uma cadeia que propicia maior distribuição de renda, também exige dos empresários maior consciência ambiental, sem prejuízo na sua atividade, e sim com oportunidade de um novo negócio.

O aproveitamento consciente dos recursos ofertados pelos pantaneiros também gera oportunidades na cadeia gastronômica, uma infinidade de sabores que agradam aos mais diversos paladares, desde a carne orgânica até os frutos. 

A carne, sem dúvida, é a principal atividade nesse bioma, e temos uma organização que trabalha para dar a esta carne o valor merecido.

Nosso pecuarista enfrenta dificuldades adversas dentro do território pantaneiro, isso tem de ser reconhecido e valorizado, permitindo ao produto que lá está obter um diferencial de lucratividade ante os demais territórios. 

A carne produzida aqui tem um nível de qualidade elevado e reconhecido por chefes de cozinha, algo que conta com o reconhecimento do governo do Estado para os produtores de carne sustentável e orgânica.

Mas temos muito a fazer nesse segmento, como a implantação de manejos adequados para o território, algo que alguns produtores já estão aderindo.

Como as cidades que estão dentro do Pantanal acabam sendo engajadas pela Movimenta Pantanal? Há repercussão de ações para outros municípios do Estado?

A Movimenta é uma iniciativa da sociedade civil, seus membros estão espalhados por todo o território, isso fortalece a voz de cada município dentro da instituição, nas conversas setoriais.

É um processo dinâmico, as experiências e necessidades vistas em um município são compartilhadas com os demais membros, isso tem aproximado as pessoas e as instituições, afinidades estão sendo identificadas. 

A Movimenta é constituída pelas pessoas, e as cidades são formadas por cada um de nós, cremos que esse seja o melhor engajamento. A participação de outros municípios do Estado não é o foco, mas é uma consequência da convergência de interesses e necessidades.

Poderia exemplificar algumas ações da Movimenta Pantanal que já foram feitas ou que estão em andamento?

Estamos empenhados na valorização da cultura pantaneira, também estamos reunindo as lideranças por setor para captação de recursos em conjunto.

No período em que as queimadas atingiram o nosso Pantanal, fizemos intensa articulação para aproximar as instituições, estabelecer um diálogo mais próximo, isso criou uma governança no território, essa governança da sociedade civil é o nosso maior resultado. 

Outra articulação que foi feita pela Movimenta Pantanal aproximou a Associação Brasileira de Pecuária Orgânica [ABPO] e o Instituto Homem Pantaneiro [IHP] para ampliar o trabalho de proteção das onças-pintadas e promover a convivência com o setor produtivo. 

Hoje, essa articulação está ganhando cada vez mais forma, para que seja produzida a carne sustentável e para agregar valor à carne pantaneira para o mercado nacional e internacional.

O Pantanal, além de ser um bioma único, já está sendo tratado como ativo para o setor econômico garantir retorno?

O Pantanal é formado em sua maioria por propriedades privadas, são séculos de história e de trabalho das populações, tudo o que foi construído é uma recompensa de muito trabalho do povo pantaneiro.

Nosso grupo reúne produtores da Pecuária sustentável, eles estão muito empenhados em manter a atividade em convergência com a preservação, temos também significativo número de associados do turismo, uma importante fonte de renda para o território, podemos crescer muito nesse segmento.

As riquezas do Pantanal ainda trarão notáveis oportunidades de negócios para as comunidades, desde a área urbana até as áreas rurais e ribeirinhas.

Poderia pontuar ações que envolvem conservar o Pantanal enquanto bioma e utilizar-se desse território para reverter em desenvolvimento sustentável?

As duas mencionadas estão ganhando destaque em nosso grupo, a pecuária sustentável e o turismo.

Mas não podemos nos esquecer de que a preservação do bioma também engloba conhecimento científico, valorização de tradições e costumes, o povo pantaneiro tem conhecimentos sobre o território que podem ainda não ter sido catalogados por livros, mas estão lá, é a sabedoria que garante há mais de dois séculos a presença humana nesse lugar lindo e desafiador.

Um outro ponto que não podemos esquecer é o incentivo à agricultura familiar com uma base sustentável, permitindo o processamento dos produtos, gerando renda e levando o nome do Pantanal para o Brasil e o mundo.

O IG do Mel foi um ganho para o território, isso demonstra a característica ímpar do que se produz no Pantanal.

A inclusão do Pantanal como um destino considerado extraordinário para se visitar, conforme publicação internacional, pode representar como potencializar novos negócios e dar suporte para negócios já existentes?

Sim, precisamos aproveitar este momento de prestígio, o Pantanal está em grande evidência após a novela e esse reconhecimento.

Os setores empresariais estão investindo na melhoria do turismo, temos hospedagens surpreendentes e receptivos, que proporcionam uma experiência maravilhosa, o Pantanal é único, isso gera valor.

Mas estamos trabalhando para que outras melhorias aconteçam, o empresariado e as comunidades precisam de parcerias, apoio para manter a qualidade que proporcionam e inovar nas ofertas.

Quais parceiros a Movimenta Pantanal tem para atuar no território?

A Movimenta reúne membros de diversas instituições, temos catalogada a participação de 32, e o número só cresce ao longo das articulações e ações em conjunto.

Já mencionamos o Sebrae-MS, que reuniu as lideranças, contamos também com a parceria da Wetlands, da Visit Pantanal, SOS Pantanal, IHP e outras. A participação de todas as instituições e do poder público é o que nos auxilia no alcance de resultados, o justo mesmo seria mencionar todas as parcerias, a lista é grande.

Perfil

Alan Eduardo Striquer 

Tem 44 anos, é formado em Administração pela Uniderp e tem MBA em Gestão de Pessoas pela FGV. Exerce a função de diretor administrativo na Cerâmica Fênix, que tem atuação em Mato Grosso do Sul e na Bahia.

No Estado, a fábrica fica em Rio Verde de MT, além de uma loja para varejo em Campo Grande. Atualmente, também é presidente da Comunidade Kolping Frei Tomás, de Rio Verde de MT.

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