Depois da condenação de Jamil Name Filho, Marcelo Rios e Vladenilson Olmedo, pelo assassinato de Matheus Xavier, as dezenas de faixas que pediam a condenação da milícia desapareceram das ruas de Campo Grande.
Cerca de três dezenas destas faixam haviam sido espalhadas ao longo das principais avenidas em todas as regiões da Capital uma semana antes do julgamento, que começou no dia 17 e terminou no dia 19. Depois do encerramento do júri, na noite da última quarta-feira, aos poucos elas começaram a ser recolhidas.
Na maior parte dos locais, o anônimo autor das faixas simplesmente cortou e recolheu a parte onde estavam os dizeres, deixando para trás as hastes de madeira, os enforca-gatos e a fiação com a qual haviam sido amarradas.
Faixas com o mesmo conteúdo e sem autoria definida já haviam sido espalhadas pela cidade em novembro de 2019 e em meados de abril deste ano, mas o julgamento foi adiado e algumas delas permaneciam até agora.
Embora não houesse autoria, a última frase das faixas, em latim, dizia: “meu filho eu não vou te deixar” (filuis meus te non relinquan). E essa é uma importante pista sobre a autoria. Os três réus foram condenados pela execução do filho do ex-policial Paulo Roberto Teixeira Xavier, de 52 anos.
Dezenas de faixas igual a essa instalada na Avenida Bom Pastor foram espalhadas pelas principais vias de Campo Grande (Marcelo Victor)O jovem, de 20 anos, foi morto com tiros de fuzil em 19 de abril de 2019. O ex-policial tem a convicção de que os tiros de AK47 eram destinados a ele. Mas, como o estudante de Direito estava dirigindo o carro do pai, foi morto por engano.
DE VOLTA AO “INFERNO”
Condenado a 23 anos e seis meses de prisão por ser mandante do atentado, Jamil Name Filho foi levado de volta ao presídio federal de Mossoró no final da tarde de sábado (22). Ele estava lá havia quase quatro anos e foi trazido para Campo Grande somente para o julgamento, o mais longo da história da Capital.
No início de seu interrogatório, que ocorreu no final do segundo dia do júri, Jamilzinho classificou o presídio federal de Mossoró, como “um inferno. Aquilo não é feito pra ninguém puxar cadeia. Não é humano, ali é um lugar de castigo.”
Já perto do final do interrogatório voltou a reclamar do presídio, principalmente do chamado RDD (Regime Disciplinar Diferenciado), que é um regime que deixa o interno em isolamento em tempo integral.
Logo depois da prisão, em setembro de 2019, Jamil Name Filho e o pai, Jamil Name, que morreu em Mossoró aos 82 anos, ficaram presos em Campo Grande. Porém, após a descoberta de um suposto planto que teriam arquitetado para mandar matar o delegado Fábio Peró e um integrante do Ministério Público, foram isolados no sistema federal.
No depoimento, Jamilzinho deixou claro que, mesmo presos, estavam numa espécie de paraíso em Campo Grande e foram expulsos para o local que ele chamou de “inferno”. “Eu e mau pai fomos arrancados do Centro de Triagem e levados para lá”, desabafou.
Reclamou, em tom desafiador, do juiz que determinou a transferência. “José Esbalqueiro, que nunca mostrou a cara”, afirmou, insinuando que o magistrado estava com medo da família Name. O curioso é que ao “desafiar” o juiz estava justamente falando que o plano para mandar matar o delegado e o promotor havia sido invenção do Ministério Público, que deu credibilidade às informações de uma pessoa que estava no Centro de Triagem.
E continuou, “RDD é o sistema mais rígido que existe e não é só do Brasil não. Inclusive pessoas que passaram por outros lugares falavam: quero ir embora pro meu país, não aguento mais”, relatou Jamil Filho.
Depois de afirmar que ao ser transferido, “meu pai foi morto, foi morto”, Jamilzinho afirmou que “meu pai dormiu um ano e nove meses com a luz acesa”, já que não tinha condições físicas de fazer uma espécie de “gambiarra” para escurecer a cela no período noturno.
Outros presos, conforme ele, utilizam uma das duas escovas de dentes que recebem para improvisar uma espécie de cortina utilizando alguma das peças de roupa para escurecer o ambiente. Porém, como Jamil Name não tinha mais vigor fisico, não conseguia subir no vaso sanitário para improvisar esta cortina.
Jamil Name morreu em 21 de junho de 2021, vítima de covid. O filho também diz que contraiu covid duas vezes no presídio e na segunda vez ficou 17 dias de quarentena. Jamil Filho está condenado a pouco mais de 46 anos de prisão e ainda existem 15 ações penais contra ele. Uma delas, inclusive, por ter arquitetado um plano para mandar matar um delegado e um promotor.