Cidades

CRIANÇAS E ADOLESCENTES

Maioria dos conselheiros eleitos é de "apadrinhados" por políticos e religiosos

Levantamento feito pelo Correio do Estado descobriu que, entre os 10 mais votados, só 3 não têm esse tipo de ligação

Judson Marinho

04/10/2023 - 10h00

Levantamento feito pelo Correio do Estado mostra que, entre os 40 conselheiros tutelares eleitos em Campo Grande, no domingo, a maioria era de membros de igrejas, principalmente evangélicas, e “apadrinhados” por políticos. 

Entre os 10 mais votados, é possível perceber que a maioria dos eleitos estava tentando a reeleição, muitos deles atuando em Conselhos Tutelares há mais de dois mandatos. Desses, apenas 3 candidatos não tinham nenhuma dessas ligações.

Anna Paula Falcão Bottaro Machado, a conselheira com mais votos (1.253), tem ligação política com William Maksoud Neto, que atualmente é vereador em Campo Grande pelo PTB. 

Além dele, Anna Paula já fez campanha publicamente para Marquinhos Trad, para governador, e Fábio Trad, para deputado federal, nas últimas eleições.

Outra conselheira eleita que também já externou apoio nas redes sociais a políticos é Letícia Ferreira da Silva. Quinta candidata mais votada, além de demonstrar sua ligação religiosa com o catolicismo, ela já demonstrou apoio político ao vereador Silvio Pitu e a Marquinhos Trad.

As mesmas posturas e ligação religiosa nas redes sociais entre os mais votados podem ser identificadas na conselheira tutelar Tatiane Lima de Oliveira, assim como a nova conselheira eleita, Larissa Abdo Corr (645 votos).

Apesar de deixar claro suas qualificações para o cargo, como sua formação em Psicologia Jurídica, em uma entrevista durante sua campanha, Larissa deixou clara sua ligação religiosa evangélica quando questionada sobre estar comprometida a levar os princípios e os valores cristãos para o cargo público.

*Saiba

As duas conselheiras tutelares que atuaram no caso da menina Sophia Ocampo, Ana Clara e Suellen, que faziam parte do atendimento as crianças e adolescentes na região onde a criança morava, foram reeleitas para a função, no qual devem exercer nos próximos quatro anos.

Outra conselheira eleita com um discurso parecido foi Maria Carolina Marquez Zamboni, considerada nas redes sociais como uma candidata de direita.

Em um dos vídeos publicados pela então candidata, Maria Carolina afirmava que seria “a voz das famílias conservadoras, das crianças que estão sendo caladas, defendendo os valores da família e a não sexualização e doutrinação das crianças”.

Conforme apurado pelo Correio do Estado, entre os 10 mais votados nestas eleições para conselheiros tutelares, pelo menos 4 candidatos demonstraram em sua campanha alguma ligação religiosa com igrejas e cultos e 5 tinham indícios de apadrinhamento político de vereadores, ex-prefeitos e deputados.

Levando em conta os 40 conselheiros tutelares eleitos, 18 deles em algum momento de suas campanhas eleitorais para o cargo citaram suas crenças religiosas, deixando claro algum tipo de ligação.

Vale citar as conselheiras Huanna Passos dos Santos (30ª mais votada) e Fernanda Valiente (21ª), ambas líderes religiosas de igrejas em Campo Grande.

Cabo eleitoral

Conforme apuração do Correio do Estado, alguns grupos políticos podem ter apadrinhado, de forma indireta, algumas das candidatas eleitas para os Conselhos Tutelares.

Duas conselheiras, Anna Karoline Kalache Correa Lima Barreto e a Maria Suenia de Lima Romeiro, tinham em comum uma apoiadora de suas campanhas que fazia parte do PSD Mulher.

De forma mais específica, a conselheira tutelar reeleita Maria Suenia divulgou nas redes sociais diversas campanhas políticas que demonstram seu apoio à família Trad como um todo.

Outros dois conselheiros tutelares eleitos foram identificados como assessores parlamentares, o que mostra uma clara e direta ligação dos candidatos com políticos atuantes em cargos públicos.

O maior exemplo encontrado desse possível apadrinhamento é o da candidata eleita Gislaine Spessoto Soares Matoso (26ª colocada), que é assessora parlamentar do vereador Clodoilson Pires (Podemos) e já publicou diversas manifestações de apoio ao político.

Sub judice

Conforme já noticiado pelo Correio do Estado em dias anteriores às eleições, aconteceram diversas impugnações de candidaturas por conta de apadrinhamento político e divulgação de propaganda eleitoral em templos religiosos, o que é proibido.

A candidatura de Indiani Carolini Domingues Mercado da Silva foi impugnada por ela ter infringido o art. 4, com agravo dos incisos V, VI, VII e IX alínea “c”, por ter apadrinhamento político do deputado estadual pastor Lidio Lopes.

A candidata Suelen Leme também teve sua candidatura impugnada por ter se utilizado de templos religiosos para fazer propaganda eleitoral durante as eleições para conselheiros tutelares. Ela também teria ligação com políticos, nesse caso, o vereador Betinho.

Entre os 40 conselheiros eleitos no domingo, 2 estão com suas candidaturas sub judice, ou seja, aguardam por determinação judicial sobre possíveis infrações cometidas para saberem se poderão assumir seus cargos.

 

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