Cidades

JUDICIÁRIO

ONG ligada a ex-vereador quer paralisar construção civil em Campo Grande

Mais de 15 mil unidades habitacionais são alvo de ação que começou em briga contra edifício no Bairro Chácara Cachoeira

Eduardo Miranda

18/12/2023 - 09h00

Ação civil pública ajuizada pelo ex-vereador Marcelo Bluma (PV), por meio de uma organização não governamental (ONG) denominada Auditar Brasil, pretende paralisar o setor de construção civil em Campo Grande. Alegando a não realização de audiências públicas para debater os Estudos de Impacto de Vizinhança (EIVs) de 65 projetos, ele pediu à Justiça para que todos sejam paralisados até que as consultas sejam realizadas. 

Caso o Judiciário atenda ao pedido do ex-vereador, mais de 15 mil unidades habitacionais, muitas delas já prontas e comercializadas, poderão ser embargadas ou ter suas obras suspensas.

A ONG autora da ação, a Auditar Brasil, funciona na Rua Bela Cintra, no Bairro Tiradentes, no mesmo endereço da sede do Partido Verde, historicamente comandado por Marcelo Bluma. A cruzada de Bluma contra a construção civil em Campo Grande teve início depois que a incorporadora Plaenge decidiu lançar um residencial vertical de 94 unidades a poucas quadras de sua casa, no Bairro Chácara Cachoeira.

Por causa deste projeto, Bluma, apoiado por vizinhos, ingressou com outra ação civil pública, em que obteve liminar favorável para suspender a Guia de Diretrizes Urbanísticas (GDU), documento que autoriza a incorporadora a dar início à construção do edifício. 

O grupo resiste à verticalização no bairro e, agora, pelo teor desta ação civil pública, faz a disputa escalar ainda mais, pedindo a paralisação de 65 projetos em Campo Grande.

Entre as obras que poderão ser suspensas ou embargadas estão edifícios já concluídos da construtora Northern Capital, cujo nome de fantasia é Jooy, no Bairro Mata do Jacinto. 

Neste residencial, o Jooy Style, todos os apartamentos foram vendidos. Em outro residencial da mesma construtora, o Jooy Wonder, na Vila Planalto, as obras estão 68% prontas, quase todas as unidades foram comercializadas e todas as torres já estão em pé. Ao lado delas, um outro residencial, que integra o projeto Reviva Campo Grande, que tem como objetivo revitalizar o centro da cidade, também poderá ter suas obras embargadas.

As 792 unidades do Reviva Campo Grande, levantadas pela Cesari Construtora, já estão sendo comercializadas e o canteiro de obras já foi todo mobilizado.

“Pedido inconsequente”

A MRV, construtora que teve franca ascensão com o programa Minha Casa, Minha Vida, é outra que poderá ser prejudicada com a ação ajuizada pela ONG representada pelo ex-vereador. Ao todo, 14 projetos, alguns deles em comercialização e com obras em andamento, também são alvo do pedido de suspensão das GDUs.

Só da MRV, quase 5 mil unidades estão comprometidas. As construtoras Plaenge e Vanguart, que integram o mesmo grupo e que foram pivô da reação de Bluma e de vizinhos do Bairro Chácara Cachoeira, também poderá perder mais de R$ 100 milhões em investimentos de aquisição de terrenos, mobilizações de canteiros de obras e projetos de prédios que não foram lançados. 

Também há quase 500 unidades habitacionais da Plaenge e mais de 700 da Vanguart na mira da ação de Bluma.

As construtoras Jooy, Plaenge, Vanguart e MRV já pediram para integrar a ação civil pública, por serem potencialmente prejudicadas pelo pedido da ONG Auditar Brasil. 

Nas petições ajuizadas, as construtoras classificam a ação da ONG Auditar Brasil como “pedido inconsequente” e que poderá gerar grande prejuízo, não somente às empresas, mas a toda a cadeia da construção civil.

A Procuradoria-Geral do Município entende que o pleito de Bluma é equivocado, pois a necessidade de realização de audiência pública não deve ocorrer necessariamente durante a expedição do EIV, e sim em outras fases da obra, como, por exemplo, o licenciamento ambiental. 

O Plano Diretor e o Estatuto das Cidades são genéricos ao requererem a participação popular nos projetos de expansão urbana. O primeiro exige que a população seja consultada, sem especificar a fase, enquanto o segundo apenas menciona a participação popular por meio de princípio.

O Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), em seu parecer, reconhece a necessidade de consulta à população, e não necessariamente a realização de audiências públicas em cada um dos projetos.

O órgão, porém, não vê problema em suspender algumas das GDUs, ainda que temporariamente, até a realização da consulta.

A ação civil pública tramita na 2ª Vara de Direitos Difusos, Coletivos e Individuais Homogêneos de Campo Grannde, cujo titular é o juiz Marcelo Ivo de Oliveira.

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