Cidades

mobilidade urbana

Veículo sobre trilhos pode ser alternativa para melhorar o transporte da Capital

Especialistas afirmam que Campo Grande já comporta essa alternativa de locomoção; hoje, a cidade conta apenas com ônibus

Ketlen Gomes

23/12/2023 - 09h30

Em meio a discussão entre a Prefeitura de Campo Grande e o Consórcio Guaicurus sobre o reajuste do valor da tarifa de ônibus da Capital, muitos usuários do serviço reclamam da qualidade oferecida no transporte público na cidade.

Para Rafael Calabria, coordenador do projeto de mobilidade do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), para melhorar as condições na cidade, a solução poderia estar no veículo leve sob trilhos (VLT).

“A capital de Mato Grosso do Sul já está com uma população de quase 1 milhão de pessoas e, naturalmente, tem demandas de infraestrutura, pelo menos de média e alta capacidade, como VLTs e corredores de ônibus, e isso deve estar apresentado no plano de mobilidade da cidade”, argumenta.

“Entre os corredores [de ônibus] e os VLTs, o VLT é interessante por ele ser um sistema de trilho, já por base não é poluente, é elétrico e ainda tem mais capacidade do que o corredor de ônibus, que é chamado também de BRT [bus rapid transit]. Então, o VLT é legal para ser o eixo principal [no transporte público] de Campo Grande”, observa Calabria.

A instalação de um novo modelo de transporte também é uma das possíveis soluções levantadas pelo especialista em trânsito Carlos Alberto Pereira para melhorar a carência do transporte público na Capital.

Pereira aponta que, primeiramente, é necessário ampliar a oferta de transporte coletivo em diferentes modais 
e que esse transporte precisa ter um custo acessível ao público, ser confortável, com ofertas de embarque e desembarque em locais acessíveis para o cidadão.

“Existe um ponto de vista de que o valor do transporte coletivo não deve ser totalmente coberto pelo trabalhador, ele tem que ser subsidiado”, comenta o especialista.

Apesar de ele concordar com essa posição, em função de muitas vezes o valor mensal do passe de ônibus “comer” uma boa parte do salário do trabalhador, Pereira ressalta que não se pode deixar todo esse custo para as empresas.

Além desses fatores, a mobilidade urbana também é apontada como algo essencial para a melhoria do transporte público. O especialista opina que, para isso de fato ocorrer, é necessário melhorar a infraestrutura, com a implantação de obras de engenharia e arquitetura, com viadutos, alçar de acesso e trincheiras.

“Aqui [na Capital], opta-se por implantar rotatórias em pontos que essa solução já está superada pelo número de veículos”, exemplifica Pereira, observando essa solução como um dos problemas de infraestrutura da cidade.

Ele cita locais como a Via Park, o anel viário e a rotatória da Av. Tamandaré com a Av. Euler de Azevedo como exemplos de que essa iniciativa de mobilidade urbana já não cabe mais a Campo Grande.

ESTUDO

Neste ano, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e o Ministério das Cidades firmaram um acordo de cooperação técnica que visa elaborar um Estudo Nacional de Mobilidade Urbana.

Para isso, foram escolhidas 21 regiões urbanas do País. Do Centro-Oeste, apenas o Distrito Federal e a cidade de Goiânia estão no plano.

Além das duas localidades, Belém, Manaus, Fortaleza, João Pessoa, Maceió, Natal, Recife, Salvador, São Luís, Teresina, Belo Horizonte, Campinas, Rio de Janeiro, São Paulo, Vitória, região da Baixada Santista, Florianópolis, Curitiba e Porto Alegre compõe o estudo.

Enquanto isso, a capital de Mato Grosso do Sul não está na lista para projetos a longo prazo por ter uma população menor que 1 milhão de habitantes (898.100, segundo o último Censo Demográfico).

Em relação ao estudo, Pereira, que também é mestre em Desenvolvimento Local, acredita que o resultado será compartilhado com as outras cidades do País que não fazem parte do estudo.

Calabria, por sua vez, também compartilha da mesma opinião, tendo em vista que o levantamento vai ser feito para criar um quadro do que o Brasil precisa em termos de mobilidade urbana.

“Há de se ter um diagnóstico do cenário do Brasil, para saber quantos recursos precisam ser investidos e, depois, para buscar fontes para esses recursos e conseguir viabilizar essas obras, mas é um plano a longo prazo”, comenta o coordenador de mobilidade do Idec. 

Para participar do levantamento, Pereira relata que foi lançado um edital para que as cidades demonstrassem interesse em participar do projeto. No entanto, entre as especificidades da adesão, estava ter mais de 1 milhão de habitantes.

“A partir dessa parceria, está sendo contratada uma agência de grande porte que vai em cada uma dessas cidades que está contemplada no estudo. É tentar superar o deficit 
de transporte”, pontua.

O estudo contempla atender às necessidades de investimento no transporte público, avaliando inclusive demandas para implementação de trens, metrôs, VLTs e BRTs.

ÔNIBUS

Hoje a única opção de transporte público em Campo Grande são os ônibus, meio de locomoção que tem acumulado problema nos últimos anos, seja por desacordo entre o Consórcio Guaicurus (responsável pelo serviço) e a prefeitura, seja por reclamações dos usuários.

Para Maria Alves de Jesus, 47 anos, o serviço prestado não é de qualidade. “Eu acho ruim. Esta semana mesmo eu peguei o 087 [linha de ônibus] e estava entrando água dentro dele. Eu acho que poderia ter frota nova, melhores bancos, ar-condicionado, porque dentro dele é muito quente. Poderia ter insulfilme nas janelas, porque o sol de meio-dia é muito quente”, avalia.

“Eu sempre achei que deveria ter concorrência, porque com só uma empresa não tem concorrência. Eles fazem o que eles querem, então ou você vai de aplicativo de carona ou vai de ônibus”, adiciona.

Essa é a mesma opinião da jovem Fernanda dos Reis, 19 anos, que afirma que os ônibus demoram muito para chegar onde ela mora.

“Está péssima [a qualidade]. O horário é ruim, e a gente demora horas para conseguir pegar um ônibus. Eles querem aumentar [a tarifa], mas não melhoram em nada. Acho que deveria implantar coisa melhor, porque é uma cidade grande, deveria evoluir mais”, critica.

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