Único integrante de Mato Grosso do Sul na bancada da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI), do Congresso Nacional, que apura os descontos indevidos no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), o deputado federal Beto Pereira (PSDB) já está se preparando para os trabalhos na comissão, que, segundo ele, devem durar até o fim do ano, algo que vai movimentar a opinião pública faltando aproximadamente um ano para as eleições gerais.
Sobre a comissão, o deputado disse que os parlamentares devem requisitar as informações presentes no inquérito da Polícia Federal (PF) para que a investigação não comece do zero. Pereira disse que espera responsabilizar os culpados e, também, impedir que descontos indevidos continuem a existir. Quanto a isso, ele não poupa o ex-ministro da Previdência Social, Carlos Lupi (PDT).
“Inclusive, eu gostaria de saber qual é o fundamento para o Ministério da Previdência Social, que na época tinha o Carlos Lupi como titular, não ter estancado os descontos de forma imediata”, disse ao Correio do Estado.
Na entrevista, Beto Pereira também falou sobre o futuro do PSDB, o partido que ele está, e que aparentemente está próximo do fim, além de comentar o clima no Congresso após o tarifaço anunciado por Donald Trump, presidente dos Estados Unidos.
Como está a negociação do futuro do PSDB, uma vez que você é um dos deputados que integra a bancada do partido, que está cada vez menor?
O PSDB já foi o maior partido do Brasil. Esses dias eu comentei com um colega e lembrei que o PSDB já foi “a noiva mais cobiçada do Congresso Nacional”. E hoje ninguém quer mais. Nas negociações que temos em andamento hoje (com MDB e Republicanos), ficamos em uma posição difícil de exigir muita coisa.
Você vai com o ex-governador Reinaldo Azambuja, atual presidente do PSDB em MS, para o PL?
Nós estamos fazendo uma mudança planejada, em que parte do PSDB irá com o Reinaldo, outra parte vai com o Riedel, e uma outra irá se abrigar em outra legenda. A outra legenda pode ser uma federação em que o PSDB faça parte, e pode até mesmo ter uma migração ao PSD ou para o próprio Republicanos.
Mas você está mais para o PL, para o PP ou para outro partido?
Aí existe uma estratégia que está sendo desenhada com a anuência do governador, Eduardo Riedel, e com a anuência do Reinaldo Azambuja, que é justamente conosco que somos do Legislativo e não temos janela imediata. Porque o Riedel pode mudar de partido na hora que ele quiser, o mesmo, o Reinaldo. Para nós, como não temos como mudar de partido agora, a nossa decisão será postergada para o mês de março de 2026.
O PL pode ser um partido mais difícil para se eleger como deputado? Sobretudo por causa da força do engajamento de uma ala muito ligada às redes sociais?
O meu diagnóstico é o seguinte: quem vai para o PL terá vida difícil igualmente quem ficar em qualquer outra legenda. É uma disputa bastante pesada, sim. Temos aí 10 ou 12 nomes muito fortes para as oito vagas de deputado federal.
A leitura que fazemos é a seguinte: esse voto que depende mais do engajamento via rede social independe do partido. Ele migra com o cidadão [candidato]. É uma questão meio pessoal, não vinculada diretamente à legenda dele.
Tem gente de forte apelo em redes sociais em vários partidos, não apenas no PL, como também no União Brasil, PSD...
Recentemente, o ministro da Previdência Social, Wolney Queiroz, disse que os “alarmes” da Previdência foram “desligados”, o que teria permitido a farra dos descontos indevidos. Você concorda com essa afirmação? Esse é um dos pontos em que você deve atuar na CPMI?
Esse é um ponto gravíssimo, porque não foi por falta de aviso prévio que as medidas não foram tomadas. Teve aviso de tudo quanto é jeito e de tudo quanto é lado. Tudo isso chegou ao ministro Carlos Lupi e tudo isso foi ignorado.
O que houve entre o momento do alerta e a Operação Sem Desconto da Polícia Federal, durante esse lapso temporal? Não há onde os responsáveis se escorarem por não terem tomado nenhuma providência para estancar isso [os descontos ilegais nos benefícios de aposentados e pensionistas].
E isso é algo que será amplamente debatido, inclusive, eu gostaria de saber qual é o fundamento para o Ministério da Previdência, que na época tinha o Carlos Lupi como titular, não ter estancado os descontos de forma imediata.
E quando começam exatamente os trabalhos da CPMI?
Começam na primeira terça-feira do mês de agosto. Assim que voltarmos do recesso parlamentar, já começa.
Relator e presidente já estão definidos, ainda que informalmente?
Para a presidência tudo indica que será o senador Omar Aziz (PSD), porque trata-se de uma comissão mista, e o presidente tem de ser um senador. A relatoria será de um deputado e ainda está indefinida. Será escolhido um nome dentre os 16 deputados que integram a comissão.
Você vai atuar para que a CPI não tenha um fim melancólico, como a CPI das Bets, do Senado, que teve o relatório final rejeitado pelos próprios parlamentares e não puniu ninguém?
Eu entendo que nós precisamos apurar e responsabilizar de fato. Temos recursos financeiros que foram retirados das pensões, das aposentadorias, e que foram drenados para sindicatos e associações que, em primeiro lugar, não prestam serviço algum ao cidadão.
Para relativizar o pouco, minimamente, estas entidades prestam um serviço muito aquém dos que elas recebem. Então esse é o primeiro ponto. O segundo é que, ao fim deste processo, acho que tem que haver um avanço e proibir, de forma definitiva, qualquer tipo de desconto.
Se o cidadão quiser algum desconto no salário dele, ele vai e procura a entidade associativa. Pede um boleto, ou algo assim.
Sobre os inquéritos da Polícia Federal no contexto da Operação Sem Desconto, que continuam em andamento. Há alguma chance de eles se confrontarem com a investigação da CPMI?
Olha, ainda não acabou a operação da Polícia Federal. O que houve até agora foi apenas uma primeira fase, e há muitos indícios de que teremos mais coisas, né? Por isso, qual o clima entre os integrantes da CPMI? A primeira coisa que a gente tem que fazer é a requisição do inquérito, para ficarmos por dentro de tudo o que a PF já apurou. Isso será importante para que possamos partir de um ponto que já foi apurado, e conseguirmos avançar e mirar naquilo que é fundamental.
Voltando aos objetivos da CPMI, você os tem bem definidos?
Sim. O primeiro é aperfeiçoar a legislação para que não haja mais brecha, não exista mais espaço para entidades associativas e sindicatos operarem em desfavor de aposentados e pensionistas.
O segundo é buscar ao máximo a responsabilização direta e indireta dos que concorreram para o crime. E em terceiro lugar, tentar mitigar o prejuízo recuperando aquilo que foi submetido. Acho que estes são os objetivos.
E sobre o veto do presidente Lula ao aumento do número de deputados, acha que será mantido ou derrubado?
O que houve foi o seguinte: o STF cobrou da Câmara dos Deputados o recálculo da vagas. E o que teria de ser feito era o recálculo. Neste critério, Mato Grosso do Sul esteve muito perto de ganhar um novo parlamentar, como pode ocorrer com Mato Grosso.
Não podemos ignorar que nos últimos 10 anos houve um processo migratório, que trouxe muito mais gente para cá do que para outros estados, aumentando proporcionalmente nossa população.
Mas repito, o que tem de ser feito é o recálculo, que mantém o total de vagas em 513 e não aumenta gastos, não aumenta nada. Ocorre que os estados prejudicados tinham de perder bancada para entregar a vaga para um estado que cresceu em população. Houve alguns estados prejudicados na região Nordeste, cujas vagas sairiam de lá e viriam para Norte e Centro-Oeste.
Mas, respondendo a sua pergunta, a minha impressão é que esse veto se mantém. O Congresso não deve comprar essa briga e o total de cadeiras deve ficar em 513.
Sobre as últimas eleições para prefeito de Campo Grande, que você disputou, qual a experiência que você leva de ter participado do pleito e de ter andado bastante pela Capital? Qual é o seu projeto para 2026?
Para 2026, o projeto é me reeleger deputado federal. O fato de ter disputado as eleições em Campo Grande me deu muito subsídio para entender as dores da população e, de alguma forma, tentar buscar soluções.
Acho que isso, para mim, foi fundamental. E Campo Grande é uma cidade que tem potencial gigantesco, uma cidade que poderia estar ostentando indicadores tão favoráveis quanto os indicadores do estado de Mato Grosso do Sul. Uhum. Uhum. Só que patina por decisões equivocadas e falta de coragem.
E você quer uma segunda chance para disputar a prefeitura?
Não sei. Primeiramente, estou focado na disputa da minha reeleição. Depois daí, é só Deus para trilhar qual vai ser o caminho.
Perfil - Beto Pereira
Beto Pereira é deputado federal e está no segundo mandato. Ingressou na política em 2005, quando foi prefeito de Terenos, cidade vizinha a Campo Grande, por dois mandatos. Chegou a presidir a Associação dos Municípios de Mato Grosso do Sul (Assomasul) entre 2009 e 2010. Também foi vice-presidente da Confederação Nacional de Municípios (CNM), e deputado estadual entre 2015 e 2018.