Nossas origens nos remetem aos povos da África, com seus conhecimentos, rituais sagrados e pagãos a organizar-lhes a vida, e aos povos indígenas, com os mesmos rituais sagrados e pagãos com que fazem a vida florescer e dar-lhes sentido.
Esquecidos de nossos rituais de origem por uma educação reducionista, preconceituosa, consideramo-nos cidadãos de quinta e estamos ainda dando os primeiros passos para nos afirmarmos como nação que sabe o que quer.
Ficamos cada vez mais distantes da terra, abraçando novidades que vinham lá do Hemisfério Norte e, assim, em vez de indigenizar, de africanizar o nosso conhecimento, demos ouvidos à marcha do consumo, continuamos nos encantando com miçangas e espelhos e passamos a comer pão francês, em vez de mandioca.
Continuamos acreditando que nossa salvação é um deus novo; e continuamos como inocentes seres da floresta desfeita, a receber o pão com salsicha, que de nutritivo não tem nada, a não ser menos de 1% do PIB. Talvez, devêssemos voltar a comer mandioca e milho.
A identidade brasileira ainda está em formação? Mas como? Temos nosso arroz com feijão, música caipira, intelectuais e artistas, pintores, escultores e nossas igrejas, mas nosso caminhar ainda é lento para nos apropriarmos dessa nossa identidade.
Somos jovens e nos encantamos mais com a história de outros povos, aprendemos mais sobre eles do que sobre nossa aldeia. O problema parece começar na escola, ainda aprendemos com os jesuítas que vieram nos colonizar. Quanto àqueles que construíram com suas mãos um grande pedaço da história do Brasil, que são os negros, pouco sabemos de suas nações, bem como sabemos pouco das lendas indígenas, uma riqueza nacional.
Por que desprezamos nosso passado histórico? Afinal, o que guia nossas cabeças? Não deveríamos nos esquecer de conhecer toda a produção intelectual de todas as partes do mundo, mas as nossas raízes, se outros quiseram que esquecêssemos, que a resgatemos para que, somados, desenhe-se o que nos inquieta. Por debaixo desse véu, há muito que mostrar às crianças, aos jovens e também a nós, que, como eu, já vão dando sinais de cansaço de tanto ver flores exóticas florescerem. Voltar atrás, não, dar valor à nossa história, nossa identidade, sim.
E não é xenofobia, eu compreendo que ampliar nossos horizontes culturais é o segredo para avançarmos no processo civilizatório. Aproveitar o conhecimento acumulado pela humanidade para integrá-lo, somando-se às nossas raízes, para que das nossas vitórias-régias surja um quadro em que preservar seja tão importante quanto obter novos conhecimentos; aportar recursos para redescobrirmos um Brasil que, adormecido por falta de aplausos, vai se apagando da vida nacional para dar lugar somente aos usos e costumes de outros povos.
Não somos um povo qualquer, somos a 7ª economia mundial. Temos uma gastronomia invejável, artistas da melhor qualidade em todos os campos da arte, mas precisamos olhar para trás e vermos o que deixamos de cultuar. Que banquete oferecemos aos que chegam? A oportunidade de desenharmos a identidade dessa terra brasilis, com samba, caipirinha, feijoada? Há muito mais que isso, há comidas típicas em todas as regiões do Brasil, há danças e tradições folclóricas. Há indígenas lutando por suas terras, que precisam ser demarcadas e preservadas, e sobretudo há todo um conjunto de cidadãos necessitando de melhores condições de vida e crianças necessitando conhecer sua história, suas raízes, sua cultura e identidade.
Que tupã nos ajude a saber quem somos e a nos apoderarmos daquilo que nos constitui como identidade, compreendendo quem nos formou, o que nos distingue de outros povos, e não varrer para debaixo do tapete todo um conhecimento historicamente construído.