Artigos e Opinião

ARTIGO

Cezar Benevides: "Passagem para modernidade"

Autor do artigo é professor aposentado pela UFMS

Redação

16/10/2014 - 00h00

Visitando recentemente minha cidade natal, João Pessoa, recebi um presente de um amigo de infância, Juiz Federal, Alexandre de Luna Freire, membro da Academia Paraibana de Letras. Trata-se do livro A reinvenção do conhecimento: de Alexandria à internet, escrito pelos professores norte-americanos Ian S. Mcneely e Lisa Wolvertom (Editora Record). O interessante trabalho me reportou a uma viagem que fiz para participar de atividades no Mosteiro de São Bento, em São Paulo.

O abade, Dom Mathias Tolentino Braga, foi aspirante a piloto militar na Academia da Força Aérea e depois cursou engenharia eletrônica no Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA). Ele me levou, pessoalmente, para observar as reformas que estavam em andamento e conversamos muito sobre projetos. Mostrou-me a cela discreta na qual o atual papa emérito Bento XVI ficou hospedado em 2007.

O conjunto arquitetônico é eclético, mas indiscutivelmente um marco singular no processo de urbanização da cidade de São Paulo. O edifício atual foi construído entre 1910 e 1912 quando os ingleses que tinham escritório nas imediações também estavam chegando em Mato Grosso para fundar a The Miranda Estancia Company Limited. Mas os monges beneditinos já estavam ali, naquele local, desde 1600 em instalações rudimentares. Só existe na cidade uma igreja mais antiga, a de Santo Antônio, datada de 1592, próxima à tradicional Faculdade de Direito, do Largo de São Francisco.

Um dos projetos sobre o qual conversamos merece destaque pois é de interesse público nacional e internacional. Está agora na imprensa (Jornal O Estado de São Paulo de 28/09/2014, pag. 1). As obras raras da biblioteca poderão ser acessadas pelo público. Há títulos raros do século XV ao século XIX. Existem também obras de arte que chegaram a ser expostas nos Estados Unidos, na Bélgica e em Portugal, mas infelizmente não foram ainda mostradas no Brasil por falta de segurança adequada. O espaço interno mais reservado, o claustro, continuará fechado, mas o jardim interno no qual os monges meditam poderão ser vistos de longe pelo público externo. Assim a reinvenção do conhecimento na modernidade passa necessariamente pelos mosteiros. 

Tais instituições não preservaram apenas o passado, mas também evitaram quebrar o elo com os tempos da modernidade. São instituições que nasceram com o DNA para a longevidade. Basta lembrar que o mosteiro de Monte Cassino, fundado há mais de 1500 anos pelo próprio São Bento, perto de Roma, construído e reconstruído diversas vezes, abriu o seu próprio site (http://www.cassino.it/abbaziamontecassino.php).

Contudo, a contribuição maior dos monges foi a recuperação de terras remotas, não cultivadas, de maneira que foram também os pais do agronegócio. Resistiram quando a civilização da antiguidade clássica entrou em declínio. Quando a agricultura foi abalada o monge Gregório, que se tornaria papa, bradou em voz alta: “O mundo já não anuncia seu fim próximo, mas o exibe diante de nós”. Ele estava dizendo que os campos estavam sendo abandonados pelas pessoas e a terra desertada pelo lavrador desolado. Era preciso resistir e eles resistiram. As formas de resistência adotadas pelos monges foram variadas.

O próprio poeta Danti Alighieri, depois de Gregório, deu voz a São Bento: “Aquele monte em cuja costa está Cassino/foi já habitado no seu cume/por gente enganosa e mal disposta” (Dante Alighieri - A Divina Comédia: Paraíso). Caros leitores e eleitores, pensem nisso!

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