A propósito dessa extraordinária odisseia que a nossa tropa retirante enfrentou, vale aqui registrar o seguinte: guardadas as proporções de efetivos humanos, tempo e lugar, estudiosos da história bélica, notadamente autores franceses, vêm relacionando a “Retirada da Laguna”, do Visconde de Taunay (1843-1899) - a primeira edição foi escrita por ele em francês e, algumas subseguentes, também foram editadas nessa língua - com a saga clássica da “Retirada dos Dez Mil”, de Xenofonte.
E até mesmo, consideram a nossa “Retirada” superior à dos gregos! Mas, em grande síntese, de que se trata a famosa “Retirada dos Dez Mil”? O escritor grego Xenofonte (354/428 A.C.), participou dessa que foi uma das maiores epopeias do mundo antigo, deixando-a registrada no seu famoso livro “Anábasis”.
A finalidade da expedição de 10.000 guerreiros gregos que foram à Pérsia era de combater, ao lado de Ciro, o jovem, o seu irmão Artaxerxes II. Os gregos venceram, mas Ciro foi morto depois da batalha de Cunaxa e o Exército expedicionário grego foi traído pelos persas que simularam um acordo de paz. Com esse propósito, convidaram todos os comandantes gregos para um banquete, durante o qual, foram barbaramente trucidados. Desorientados, sem lideranças, e estando a mais de 2.400 km da Grécia, os 10.000 guerreiros gregos tiveram que se retirar através de um território hostil, rodeado de nações bárbaras que os perseguiam e os exterminavam. A situação era terrível. Mas Xenofonte não se deixa amedrontar, e com a sua oratória eloquente consegue passar a esperança para os oficiais e combatentes a fim de vencerem aquela situação desesperadora.
Com a sua presença e liderança, assume o comando da tropa. Enfrentando todos os tipos de perigos e vicissitudes, Xenofonte consegue levar os gregos até ao Mar Negro, após 06 meses de penúrias, de sofrimentos e comandando homens desnudos e desfigurados. Um grito tremendo escapa dos peitos arfantes desses 10.000 retirantes, ao divisarem o mar e o saudarem: thálatta, thálatta (o mar! O mar!). Cumpriu-se assim, com êxito, a primeira retirada militar que a História conserva documentada, graças a Xenofonte que descreveu todo esse heroico feito no livro “Anábasis”.
A maioria dos estudiosos dessas duas memoráveis manobras épico-militares, “Retirada da Laguna” e “Retirada dos Dez Mil”, considera a “Retirada da Laguna” superior à “Anábasis”, como obra literária, máxime pela soma de problemas que a nossa “Retirada” enfrentou, bem superior à de Xenofonte. As principais razões apontadas pelos estudiosos, a favor do Visconde de Taunay são: interesse da narrativa e o heroísmo das nossas tropas; descrição da natureza, com escopo na paisagem humana, social e ambiental, particularmente entre o Rio Apa e o Aquidauana; rigor geográfico e ecológico obsessivos nas descrições; emotividade cativante; narração, com bem mais sentimento, das agruras, dos sofrimentos, e dos sacrifícios da nossa tropa do que as contidas na “Retirada dos 10.000”.
Finalmente, restaria dizer que a presente apreciação é uma singela, mas fervorosa e comovente homenagem aos militares brasileiros, que imolaram suas vidas em defesa da Pátria e da Bandeira, nas longínquas plagas do Paraguai, 150 anos atrás.