Artigos e Opinião

OPINIÃO

"O que nos aproxima também nos afasta"

Natalia Pereira Nunes - Acadêmica do curso de Administração da UNIFEI - Campus de Itajubá/MG. e Marçal Rogério Rizzo -Economista e Professor do curso de Administração da UFMS – Campus de Três Lagoas/MS

Redação

19/11/2014 - 00h00

A célebre frase “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”, do livro O pequeno príncipe, traz como verdade a ideia de que somos, por essência, seres que estabelecem laços e vínculos com o outro e que fazem ligações afetivas que, uma vez estimuladas, se intensificam e fazem que a presença do outro nos seja benquista e na maioria das vezes necessária.

Dizer que temos responsabilidades sobre tais laços de profundidade não é uma tolice filosófica, ou uma mera história sem significado. Na realidade, tal afirmação abriga um dos mais importantes pontos por trás da própria existência humana, já que, como seres complexos, parte de nossa constituição parece demandar certo empenho de energia em prol do estabelecimento de ligações de cunho social com outro indivíduo.

Se fazemos parte de um grupo social, com que nos identificamos e em que somos aceitos, sentimo-nos satisfeitos e realizados, pelo menos socialmente. O contrário, logicamente, faz que o indivíduo sofra de tal maneira que o seu próprio bem-estar físico comece a ser afetado ou até mesmo seriamente comprometido.

Apesar de não termos nascido para ficar sozinhos, a ideia de que precisamos estar constantemente em contato direto com o outro também não é verdade. O ser humano não irá sucumbir à depressão e à loucura simplesmente por deixar de realizar alguma interação direta ou indireta durante alguns dias; no entanto tal ideia de segurança não poderá ser mantida se as pessoas começarem realmente a adotar um total distanciamento do mundo social real.

Ao mencionar o mundo social real, o que pretendemos dizer é que, ao contrário da ideia que tem sido propagada nesta era da informação – o universo digital é tão real e interativo quanto qualquer outro –, o mundo do dia a dia e das interações realizadas pessoalmente não é equivalente ao ambiente formulado a partir dos sinais da internet.

Obviamente, as vantagens do universo digital não podem ser negadas. De fato, a internet tem aproximado pessoas que, geograficamente, se encontram distantes o suficiente para não poderem interagir pessoalmente, assim como tem possibilitado que as pessoas possam conhecer-se e manter contato com muito mais facilidade.

As comodidades que todos esses mecanismos trazem para o cotidiano são indiscutíveis, entretanto o grande problema não está na imersão nesse mundo digital ou no estabelecimento de diálogos via internet; o grande mal encontra-se no esquecimento de que é também preciso viver na realidade material.

As pessoas já não parecem enxergar a necessidade de ouvir a voz do outro; pelo contrário, as palavras escritas parecem ter substituído todo e qualquer som que possa ser pronunciado. Hoje, os celulares, tablets e computadores são as novas faces e vozes, que alcançam o outro por meio de redes que nos deveriam conectar, apenas, temporariamente.

A nova concepção de que se pode fazer tudo sem nem mesmo sair de casa tem sido propagada de maneira tão convincente que as pessoas parecem ter assumido isso como uma conveniente verdade, fazendo que estas se escondam do “ameaçador” ato de conhecer alguém pessoalmente.

Quantos pais deixam de passear com seus filhos para ficar “navegando” pelo mundo virtual? Quantos casais se distanciam mesmo estando na mesma casa? Quantas horas são perdidas com a internet e quantas amizades verdadeiras se retraem por não haver mais tempo para o contato pessoal?   

Afirmar que é necessário diminuir a dependência de tais mecanismos tecnológicos não é o mesmo que dizer que eles são nocivos ou indesejáveis; pelo contrário, a afirmação aponta para a necessidade de as pessoas aprenderem a usar tais mecanismos como instrumentos facilitadores, e não como produtos substitutos de uma atividade que nos é natural.

A chave está, portanto, em encontrar o equilíbrio entre esses dois mundos que, cada um a sua maneira, são potencialmente estimulantes e benéficos para a manutenção de nossa própria existência social.

 

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