Vivemos entre esquecimento e memória:/esse instante é uma ilha combatida pelo tempo incessante.
Octávio Paz
Quando fazia o Curso de Línguas Neolatinas, na PUC do Rio de Janeiro, já alimentava o sonho de dar aulas no Colégio Estadual Campo-Grandense, incentivada pelas narrativas de minha irmã Ivonete, que relembrava com entusiasmo os professores daquele tempo : Murare, Maria Aparecida Coutinho, Otácio Ruiz, Nicolau Fragelli, Rafael Gioia Martins, Luiz Alexandre de Oliveira e outros, que ganhavam pouco, não tinham estabilidade profissional, mas dedicavam-se inteiramente à missão de ensinar, fonte maior de prazer numa cidade sem grandes opções de lazer.
Dessa forma, uma de minhas primeiras providências ao chegar a Campo Grande em 1950, já formada, foi procurar o professor Múcio Teixeira (na ocasião diretor do Estadual ) para candidatar-me a uma cadeira de Português. Passei a considerar-me dona de uma vaga, até o dia em que fui informada de que meu nome não tinha sido aprovado no Diretório do PSD, devido à simpatia de meu pai pela UDN.
Só em setembro de 1950 fui aceita, depois que o governador Arnaldo Figueiredo licenciou-se para concorrer ao Senado. Afinal, meu sonho começava a realizar-se. Era uma alegria chegar para as aulas e ser recebida todos os dias à porta da escola, que funcionava no prédio da Escola Normal Joaquim Murtinho, pelo permanente sorriso do diretor Mucio Teixeira, acompanhado de brincadeiras nas conversas engraçadas, que estabeleciam clima de alegria desde a entrada e prolongava-se até o final das aulas.
As instalações extremamente precárias não diminuíam o entusiasmo dos professores, que nunca reclamavam da falta d’água, do calor das salas sem ventiladores, da distância que precisavam percorrer a pé ou de charrete até o edifício, porque não havia o sistema de transportes de hoje.
Nem por isso deixavam os professores de comparecer ás aulas. Um que nunca faltava era Francisco Ferreira, que lecionava Física, Química, Matemática, Inglês e Francês com extrema competência. Especialista na arte de conviver, despido do menor traço de vaidade, sempre sorridente, morreu sem lamentar a vida, em consequência de um assalto. No hospital foi visto rodeado dos alunos, que se revezavam na tarefa de cuidá-lo com o mesmo carinho, que se dedica a um pai amado.
Outra figura supercompetente, amiga de todos, era Ana Luísa Prado Bastos, a Prof.ª Galega. Seus alunos, no tempo em que ainda se ensinava Francês no ginásio, liam Victor Hugo, Flaubert, Baudelaire no original. Nossas conversas, no início das aulas, versavam sempre sobre o mesmo assunto: a França, seus castelos, sua civilização milenar.
Uma vez sonhei que nos encontrávamos por acaso numa das ruas de Paris. Quando a vi cruzando os ”Champs Elysées” só pude murmurar: “Mon Dieu, ce n’est pas possible, je rêve”.
Serena, cabelos prateados, Dona Galega persiste em minhas lembranças como modelo de amiga, colega, num tempo de luz , olhos abertos à verdade do canto e do silêncio.