Estudantes do mundo todo aprendem que a pele consiste no maior órgão do nosso corpo, sendo responsável pela proteção e pela direta relação de nosso organismo com o ambiente. Alvo primário de inúmeros problemas raciais sem sentido, suas cores, que podem atingir dezenas de tonalidades, podem representar determinados grupos étnicos e mais do que isso, uma histórica resposta de inúmeras gerações ao ambiente que nos circunda. Foco de trabalhos cinematográficos marcantes como A pele que habito de Almodóvar, estas definições ainda têm sido extremamente simplistas dada à magnitude da importância cutânea.
Mais do que uma simples cobertura corporal, a estrutura da pele é composta por uma miríade cooperativa de diferentes tipos celulares que tem a incrível habilidade de se reparar quando rompida ou ferida. De fato, a habilidade de reparação da pele após injúrias é essencial à sobrevivência do ser humano. Este processo ainda é extremamente nebuloso, dada a sua complexidade com direto envolvimento das células da resposta imune, células residentes e células hematopoiéticas. Contudo múltiplas descobertas na elucidação da cicatrização têm aberto novos campos no tratamento de ferimentos e queimaduras, o que inclui o uso de terapias baseadas em células-tronco assim como o transplante de pele e o uso de nanopartículas inteligentes. Algumas destas estratégias, em um futuro próximo, poderão ser aplicadas não apenas nas áreas médicas, mas também pelas indústrias de cosméticos que desenvolvem esta área e a observam como um enorme filão.
A pele também se apresenta como um órgão sensorial fantástico, transmitindo ao nosso sistema nervoso central sensações de dor, coceira, temperatura e toque. Esta habilidade se apresenta como um sistema de defesa fantástico que nos permite aceitar situações boas ou nos alerta rapidamente contra perigos reduzindo a possibilidade de ferimentos.
De uma forma geral as sensações de toque podem ser transmitidas por meio de combinações de mecanosensores cutâneos e os agora em voga mecanorreceptores de baixo limiar (do inglês low-threshold mechanoreceptors ou LTMRs) que inervam completamente a derme e a epiderme.
Além disso, existem também componentes bioquímicos não neuronais que aumentam ainda mais a complexidade do processo, criando o que chamamos de código neural do toque. Este código nos permite, por exemplo, distinguir em algumas partes mais sensíveis do corpo diferentes tipos de contato. Incrivelmente, a pele ainda pode ser mais complexa do que apenas células, receptores e nervos. Uma vez que a mesma consiste na fronteira entre o meio ambiente e nosso corpo, a pele se torna residência de milhões de microrganismos comensais. Embora diariamente sejamos bombardeados pela mídia sobre o perigo de tais organismos, durante toda a vida humana estes micro seres interagem com nossas células, construindo em conjunto, um sistema de defesa funcional contra estresses, ferimentos e infecções.
Apesar de realmente existirem microrganismos patogênicos neste meio, a microbiota cutânea benéfica e as células de resposta imune apresentam uma complexa interação que orquestra a saúde do órgão que conhecemos como pele. Finalmente e não menos importante, a pele com suas rugas, cicatrizes e tatuagens pode ser usada para contar nossa estória pessoal, demonstrando ao mundo o que representamos e como nos tornamos o que somos. A ciência está vigilante ao nosso lado, atuando sabiamente para solucionar os problemas de nossa sociedade.