Artigos e Opinião

CENAS

"Paquera no Alhambra"

"Paquera no Alhambra"

Redação

27/11/2014 - 00h00

As sessões do cine Alhambra, na Avenida Afonso Pena, eram sempre muito concorridas, tanto nas matinês de domingo, como nas sessões noturnas, em todos os dias da semana. Grandes obras do cinema mundial ali foram exibidas. Antes das exibições propriamente, havia uma intensa movimentação do público, especialmente dos rapazes, muitos com seus cabelos empastados de brilhantina Glostora ou com o fixador Gumex, cuja propaganda dizia “Dura lex sed lex, nos cabelos só Gumex”. Vestiam calças Far West, tinham os sapatos polidos com a pasta Nugget e mascavam chicletes Adams.

Eles ficavam circulando pelos dois corredores, num mesmo sentido, observando as garotas já sentadas, na intenção de uma paquera. Elas, por seu lado, observavam a movimentação, também na paquera. Muitos namoros surgiram ali e resultaram em casamentos.

Juvenal era um contumaz frequentador daquela casa e sempre fazia questão de participar do desfile que só terminava quando o sistema de som, anunciando o início da sessão, reproduzia a música-tema de “Summer place”, um filme dos Estados Unidos, de 1959, com elementos de drama e romance, e que, no Brasil, recebeu como título “Amores clandestinos”, executada pela também afamada orquestra do maestro norte-americano Billy Vaughn. 

Nesse passeio pelos corredores do cinema, Juvenal percebeu uma garota loura de cabelos longos mirando-o com insistência sempre que ele passava por ali. Sorriu para ela e foi correspondido. O assento ao lado dela estava desocupado, como se estivesse reservado para ele, que não se fez de rogado e foi sentar-se.

Apresentaram-se informalmente e trocaram informações a respeito um do outro. Conversaram por mais uns instantes, quando as luzes se apagaram e foi iniciada a projeção do noticiário do famoso cine jornal Canal 100, que sempre antecedia o filme do dia e cujo assunto principal era a exibição de partidas de futebol.

A película daquela noite era “A um passo da eternidade” (“From here to eternity”), o grande premiado de 1953, com oito estatuetas do Oscar, protagonizado por um grande elenco, no qual se destacam o consagrado Burt Lancaster, a não menos famosa Débora Kerr e o iniciante Frank Sinatra, ganhador de um dos prêmios. A história se passa numa base militar dos Estados Unidos, no Havaí, às vésperas do ataque japonês a Pearl Harbor.

Ao final da sessão, Juvenal pediu à garota, que estava acompanhada de uma amiga, permissão para acompanhá-la até a residência. Naquele tempo poucos tinham carro. Seguiram a pé pela Avenida Afonso Pena até a Rua Pedro Celestino, descendo até pouco abaixo da Joaquim Murtinho.

Pararam em frente ao portão da casa da garota e a amiga dela se despediu e se recolheu à casa ao lado. O casal ficou conversando por algum tempo, quando encostou um carro e dele saiu justamente o pai da garota, que entrou sem falar com eles. 

Juvenal tremeu todo: era o gerente da agência bancária onde ele trabalhava havia poucos dias.

Temeroso quanto ao emprego, despediu-se da moça e nunca mais a procurou.

Advogado e escritor ([email protected])

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