História como fato e história como registro escrito dos eventos ou do processo vivido são questões muito diferentes. Em primeiro lugar, não podemos examinar os fatos que estão encerrados na esfera do vivido, apenas podemos ler os seus registros, alguns considerados relevantes pelos cronistas e historiadores.
Tenho chamado a atenção dos leitores para um possível evento em que teria havido a participação do jovem tenente Ernesto Geisel (1932-1935), que atuou no Estado da Paraíba, no século passado, ocupando simultaneamente duas importantes funções na vida social local. A primeira como comandante de um pequeno quartel de artilharia do Exército Brasileiro. Tratava-se de uma bateria montada em lombo de burros, unidade militar que ficava sediada em João Pessoa. Os canhões eram de fabricação alemã, marca Krupp, utilizados na Primeira Grande Guerra e o quartel só tinha expediente matinal. Sendo assim, outro jovem, tenente civil da Revolução de 1930, com vinte e poucos anos, Gratuliano da Costa Britto, foi nomeado por Getúlio Vargas para o cargo de interventor federal na Paraíba. Gratuliano por sua vez nomeou o então tenente Ernesto Geisel para o cargo de secretário da Fazenda, aproveitando o seu repouso vespertino. Ali começava sua vida pública, chegando a presidente da República e também a presidente da Petrobras.
O País estava vivendo um período de mudanças, com a queda da República Velha comandada por Washington Luiz. A pequena equipe organizada por Gratuliano Britto fez toda a diferença. Além do Dr. Ítalo Joffily, engenheiro e urbanista, na Diretoria de Viação e Obras Públicas, nomeou José Fernandes para a Secretaria-Geral, Salviano Leite para a Secretaria do Interior e o engenheiro de portos Alvim Schenefelder para viabilizar tecnicamente o Porto de Cabedelo.
Outros jovens ainda mais jovens começaram a se destacar naquela época. Entre eles, vale citar dois paraibanos da geração de 1914: o ex-ministro da Justiça do governo de João Goulart Abelardo Jurema e José Joffily, cujos centenários de nascimentos foram comemorados neste ano. Gratuliano surgiu depois que duas tragédias haviam destruído os últimos governantes da Paraíba. João Pessoa assassinado em 1930 e Antenor Navarro morto em desastre aéreo na costa da Bahia, em 1932. Em poucos anos, esses homens fizeram grandes reformas na Paraíba, que são sentidas até o presente momento histórico, deixando como legado o exemplo máximo da probidade administrativa.
Sobre aquele período sabemos muito atualmente, mas existem alguns enigmas. Por exemplo, quanto teríamos descoberto se soubéssemos quando o movimento comunista de 1935 começou e quando terminou no Rio de Janeiro, Recife e Natal? Há pontos que nem mesmo os grandes estudiosos, como os professores Paulo Sérgio Pinheiro da USP e Marli Viana da Universidade Federal de São Carlos e o consagrado jornalista William Waack, foram capazes de esclarecer.
Segundo o relato que recolhi no passado do Dr. Ítalo Joffily, o jovem tenente Ernesto Geisel deslocou a sua bateria de artilharia até o Recife para combater os comunistas, mas teria errado o tiro de canhão e acertado a torre de uma igreja colonial, no bairro onde os revoltosos estavam resistindo. Segundo o relato do Dr. Ítalo, os comunistas teriam fugido de pavor. Há muitos anos, quando o valoroso senador Luís Carlos Prestes, chefe do movimento comunista em 1935, retornou do seu longo exílio em Moscou, eu o entrevistei em João Pessoa e ele ficou bastante irritado com o meu questionamento.
Aqui, também, em Campo Grande, conversei longamente com o ilustre comandante do Exército, general Enzo Peri, que servira duas vezes em João Pessoa, e o ilustre militar jamais tinha ouvido qualquer referência sobre este assunto. Prometeu-me que mandaria fazer uma rigorosa pesquisa sobre a questão, o que provavelmente está em andamento. As evidências de que disponho como professor de História não são suficientes em quantidade, mas são certamente em qualidade das fontes.
Dr. Ítalo Joffily foi um homem extremamente íntegro e não inventaria os fatos. Pelo menos, o deslocamento da tropa até Recife parece ter de fato ocorrido. Houve o tiro de canhão? O prolongamento do silêncio da autoridade máxima do Exército Brasileiro, pessoa que também me pareceu extremamente íntegra, ainda pode ser tomado como uma fonte preciosa, altamente qualificada.
O que existe de verdadeiramente surpreendente é que todos os homens aqui mencionados, inclusive Luís Carlos Prestes, estavam dispostos a morrer pela pátria e, sem exceção, faleceram pobres ou com poucos recursos nos bolsos. Inclusive o próprio ex-presidente da República general Ernesto Geisel que viveu até o fim de seus dias com muita simplicidade e recato.