“Meus pais me geraram para o jogo arriscado e formoso da vida” (Jorge Luis Borges)
Era uma noite de luzes, de estrelas, simbolizando as trilhas de surpresas e encantos dos 40 anos de total dedicação à dança, numa recriação da vida para refazê-la em tons de beleza. O palco das ilusões foi o Glauce Rocha.
Na noite de 30 de novembro, deslizaram diante de nossos olhos inquietos: Ana Maria Botafogo, Carlinhos de Jesus, Marcelo Misailidis, além de diversas representantes de companhias de dança, que descerraram as portas de nossa memória para o encontro com o prazer acessível aos que sabem decifrar os mistérios da noite.
Quem abriu as portas do reino da fantasia foi Neide Garrido, fada mágica, que, sem medo de enfrentar os riscos da liberdade, armou-se de técnicas e poderes especiais para implantar em nossa Campo Grande as raízes de um reino mágico, acessível apenas aos que fazem da sensibilidade o jeito de sobrevivência num mundo sem encantos.

Neide foi gerada para o jogo arriscado e formoso da vida e também para o arriscado jogo da arte, herança que lhe veio do pai, músico, o qual dominava com competência os mais diversos instrumentos.
A dança é sua razão de existir. Por ela vive cada minuto do dia a dia, inventando passos, reunindo alunos de todas as idades em torno de peças, que falam de sonhos, de desejos de redesenhar o mundo.
A dança clássica e a moderna em nosso Estado devem muito a Neide, grande estimuladora de criação de escolas do gênero, promotora incansável de espetáculos nos quais pulsam ritmos de todas as partes do mundo e da vida sul- mato-grossense.
“Sentir tudo de todas as maneiras”, como nos versos de Fernando Pessoa, poderia ser o lema dessa guerreira da arte, que nunca se cansa, que está sempre buscando formas de celebrar a vida em ritmo de dança, que transforma cada obstáculo em desafio de brilhantes conquistas, que traduz nosso ser e estar neste planeta.
Dar aulas, abrir cursos e escolas, viajar pelo mundo em total liberdade de espírito, em busca de ideias, fazem parte do jogo de quem nasceu para abrir estradas no mundo do balé.
Alma sensível ao novo, que convive com os jovens como um deles, Neide transita em todas as vias da arte, sempre fazendo questão de acentuar o papel da dança como objeto de formação integral do corpo e do espírito.
Enquanto as estrelas fazem seu giro, essa domesticadora de emoções, de gestos, sons e cores continua construindo uma história em que a magia da arte derrete corações empedernidos, e vozes unidas em coros semeiam a justiça do reconhecimento a quem dá novas luzes ao mundo da arte e do prazer de dedicar-se à dança.