Quando Henry Ford, em 1908, produziu o primeiro automóvel de passeio em escala industrial, os carros ainda eram um invento extravagante. Caros, barulhentos e perigosos – feitos artesanalmente –, eram preteridos aos cavalos e às carroças. A genialidade de Ford foi reinventar o produto, torná-lo acessível, confortável e seguro, para assim criar o maior sonho de consumo da sociedade americana. Encarnação do sucesso capitalista, o carro se impôs no cotidiano e por fim se popularizou – para o bem e para o mal das cidades.
O primeiro modelo produzido, o “Ford T”, teve 15 milhões de unidades fabricadas ao longo de vinte anos. No mundo, a cada ano, a produção da indústria automobilística alcança cerca de 80 milhões de unidades, das quais 3,5 milhões aqui no Brasil. O sucesso inesperado dos carros, no entanto, pegaria as cidades de surpresa. Despreparadas, logo viram suas ruas estreitas entupidas como artérias infartadas: era o trânsito, uma sequela do “progresso”.
Os congestionamentos são o maior desafio das grandes cidades. O paulistano, por exemplo, perde em média quase um mês por ano no trânsito. Pior para quem depende do transporte coletivo: enfrentar uma viagem de ônibus, geralmente de pé, carregando sacolas, após um dia exaustivo no trabalho, é um verdadeiro suplício. Eis, então, que surge a ideia: “e se eu comprasse um carro?”. É um círculo vicioso: quanto mais trânsito, mais as pessoas ficam estimuladas a superar o problema comprando um automóvel, o que causa mais trânsito.
Com seus 843 mil habitantes, Campo Grande ainda é um paraíso perto do caos das grandes metrópoles. Mas não precisamos chegar ao recorde de 344 quilômetros de congestionamento de São Paulo, ocorrido em maio deste ano, para constatarmos que o modelo atual de transporte não é sustentável. Em 2007, a Capital possuía 183 mil automóveis (utilitários e caminhonetes), um para cada quatro habitantes. Apenas seis anos depois, em 2013, a frota já era de 289 mil, isto é, quase um carro para cada três pessoas. Nesse ritmo, chegaremos a um carro para cada duas pessoas em sete anos. Finalmente, em 2035, Campo Grande terá um carro por pessoa – e um trânsito infernal!
No ano passado, a frota aumentou em cerca de 18 mil veículos na cidade (50 novos carros por dia), o que dá mais ou menos 90 quilômetros a mais de carros nas ruas. Diante do quadro, torna-se urgente que a sociedade discuta uma solução de transporte coletivo adequado. O metrô é muito caro – não sai por menos de R$ 100 milhões o quilômetro construído –, sendo totalmente inviável para a realidade local. Os corredores de ônibus são bons, mas insuficientes. É preciso oferecer ao cidadão um serviço de transporte coletivo rápido, de qualidade, barato e disponível, senão é impossível rivalizar com o invento de Ford.
Grande parte das cidades de tamanho médio da Europa e de vários países desenvolvidos emprega o modelo dos Veículos Leves sobre Trilhos – VLTs. Discretos e silenciosos, com trilhos rebaixados, convivem bem com os automóveis e demais elementos do trânsito. Diferentemente do “aerotrem”, que implica a construção de horrorosas estruturas de concreto e aço, o VLT pouco altera a estética urbana. A Prefeitura de Campo Grande estuda algo nesse sentido, mas é preciso, além de apoiar a iniciativa, construir esta solução a quatro mãos, governo e sociedade.
Um século depois de Ford, a promessa de liberdade projetada no carro choca-se contra a paralisia das ruas, o desperdício da espera e a angústia pelo tempo perdido. O automóvel, tão indispensável e promissor, resultou no esgotamento do espaço público e na crise da vida urbana. Sequelas de uma modernidade insensata, incontrolável, quase retrógrada: o paradoxo de carros velozes que só podem transitar no ritmo de cavalos e carroças. O futuro é arcaico, o passado é moderno.