A democracia não é uma ideologia, nem tem definição doutrinária. A democracia é decorrência do bom senso e da reflexão histórica sobre a política e processos de escolha dos governantes. Não é uma imposição doutrinária, devo repetir, mas o consenso do que foi experimentado de bom e de ruim na história política do homem. Esse consenso nos diz que o governo deve ser dividido em três poderes independentes: o executivo, o judiciário e o legislativo. A independência dos poderes é a condição primária da vida política democrática, ela dá a condição de fiscalização mútua entre as partes. Essa fiscalização é decorrência de que, cada vez mais, se evidencia que não somos santos, somos homens capazes de virtudes e pecados, que só a vigilância controla.
A eleição de presidente pode ser direta pelo voto pessoal de escolha ou indireta quando delegamos vontade aos membros do poder legislativo. A eleição direta de presidentes tem preferência entre nós latinos, que adoramos adorar. Ela atende a uma ânsia nossa da criação de mitos e semideuses a quem adoramos conceder qualidades que só existem em nossa imperiosa necessidade de santificar. A maioria dos ditadores são criados pela eleição direta. Dou exemplos: Getulio Vargas entre nós, Peron na Argentina, Hugo Chaves e agora um senhor Maduro na Venezuela, no Paraguai não sei quantos, et cetera na Bolívia.
A ditadura militar ao nos devolver o regime democrático, sabiamente o fez dentro do sistema parlamentarista, com eleições indiretas. Tancredo Neves chegou a ser eleito pelo Parlamento, mas, infelizmente, morreu antes da posse. Disso resultou imediatamente a campanha das “Diretas Já” que todos nós abraçamos com ardor patriótico. Saindo da ditadura militar que nos deixou 20 anos sem votar para presidente, então era preciso as “Diretas Já”, com toda força do nosso idealismo e todos os enganos que a emoção não nos deixava ver. Vemos agora.
O século XX, que foi o mais trágico da história do homem, começou em 1914 com a Primeira Guerra Mundial. Logo assistiríamos, em 1917, e por longos e sofridos anos, a revolução marxista, o fascismo e o nazismo com a tragédia final da Segunda Guerra Mundial. Não houve a terceira porque descobrimos a bomba atômica que nos mostrou claramente que o fim da humanidade era possível.
A partir daí o homem passou à reflexão e descobriu que a democracia era o seu caminho. Nós latinos, sul-americanos, adotamos as eleições diretas, acreditando que o voto direto chegaria mais fácil aos melhores. Esse estúpido engano levou-nos à prática da corrupção que decorre da realidade de que os partidos são incapazes do custeio de uma eleição. Neste Brasil de glórias mil e extensão continental, rotineiramente apelamos à corrupção.
No regime parlamentarista, a escolha dos governantes é feita pelo poder legislativo que é eleito por nós. Nossa escolha é feita através de uma eleição distrital, portanto gente próxima de nós e que conhecemos. Quando o governante, geralmente chamado primeiro-ministro, não dá certo ele pode ser destituído pelo legislativo imediatamente e um sucessor será eleito.
Num regime presidencialista um erro na escolha pode nos levar a um calvário de quatro a oito anos. Veja o exemplo da senhora Dilma: terminou seu mandato sem apresentar uma obra que pudesse marcar a sua presença e deixou-nos um rombo assombroso de corrupção na Petrobras. Vamos ter que tolerá-la mais quatro anos? Essa é a diferença do presidencialismo. Dizem que para tirar um sorriso da antipática Dilma gastávamos milhões com os marqueteiros. Chega. Vamos começar a fazer passeatas e gritar pelo parlamentarismo: “Indiretas Já”. Vejam próximos de nós a Europa vivendo a felicidade da democracia com o parlamentarismo. Não há outro caminho. Nosso Brasil é, por natureza, um país alegre e feliz. Precisamos, urgentemente, tirar do governo essas tristes mulas sem cabeça que o presidencialismo nos oferece. Chega!!! Falta-nos coragem para um impeachment? Vamos aceitar presidentes nadando num mar de corrupção? Vamos continuar assim? Vergonha!