Por ocasião dos ocasos, não é possível ignorar a ressaca. Entre o que vai e o que volta, estamos nós e a vida. A ressaca, todos sabem, é o movimento de fluxo e refluxo das ondas do mar causado pelos ventos. Ficar observando, às vezes, pode ser arriscado, mas é este o sentimento ao chegar o fim de 2014 e vislumbrar 2015. Nada do que foi será? Bobagem! Tudo está aí novamente a cutucar a fera que habita em nós.
Quem assistiu ao excelente filme argentino “Relatos selvagens”, dirigido por Damián Szifron, sabe ao que estou me referindo. Ou quem já leu “Um copo de cólera”, de Raduan Nassar, também sabe.
Chega a um momento em que uma minúscula formiga-cortadeira desencadeia uma tempestade. Então, como vamos contar 2014? Mais uma onda ou menos uma? Depende do ponto de vista: o otimista investe, o pessimista retrai. Entre ganhos e perdas, já é fim de ano novamente.
Ganhamos coisas novas como uma nova presidente da República? Não. Um novo prefeito? Não? Precisamos viver com as relíquias da casa velha. O que vamos fazer com elas? Esperar e pedir a Deus para tudo dar certo? (Mas não precisa ser às 7h da manhã de domingo, certo?) Não é o caso.
Vamos em frente que o ano novo se avizinha e essa vizinhança traz o aumento e a antecipação do pagamento dos impostos – IPTU, IPVA, sem contar o que sobrou deste ano, como o aumento da energia elétrica, do ICMS e consequentemente da gasolina.
O setor cultural de Campo Grande está às moscas, desde que o governo municipal resolveu que não vai repassar a verba do Fundo Municipal de Cultura e do Fomteatro. É como se a água tivesse invadido tudo e levado a todos de roldão. Neste caso, em vez de ressaca, podemos falar de maremoto.
Desde 2013, com a lenga-lenga que virou nossa municipalidade, leis e acordos do setor foram pras cucuias. Ou para os buracos que estão se abrindo em todas as ruas da cidade, seja nos bairros ou no centro. Culpa das chuvas, claro! Que falta nos faz Lulu Bergantim! Mas também aqui não conseguiria atravessar o Rubicon.
A continuar neste ritmo, o que fazer? A vida não tem ondas como o mar, diz a canção. O que foi, foi, o que não foi, tivesse sido ou ido. Daí só resta Capitu, a do Machado de Assis, bem entendido.
Talvez a única ressaca que valha a pena seja a de seus olhos – “Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca”.