É sempre assim. Você chega e me encontra rígida, quase um mármore. Quando você sai, eu me quebro inteira. Quando você chega, eu fico tão, mas tão sem jeito que eu me escondo no conforto da minha concha. Porque quando você chega eu já esperei muito.
Se você fala que vem às cinco da tarde, às 10 da manhã eu começo a te esperar. Restos de um poema que li na adolescência e nunca mais esqueci. Então, quando você chega, eu já me desarrumei toda, já comi a comida, assisti ao filme, escondi a foto, cortei até o cabelo e recolhi todos os abraços. É assim: você chega e eu me fecho.
Fosse procurar, poderia dizer que a culpa talvez seja dos meus braços frágeis, pouco afeito a abraços. E da cabeça louca e farta que interpreta o tempo como rejeição, desamor, e não como um presente. Meus braços e minha mente são tão tolos quanto eu.
Por isso, quando você chega, eles estão armados, cruzados, deslocados, arrogantes, medrosos. Perdidos como eu. Mas, quando você vai embora, elas amolecem, se entristecem e se abrem arrependidos.
Quando você chega, as palavras, antes férteis e fáceis, se esvaem por qualquer fresta, se escondem debaixo do sofá, sob almofadas gastas. E da boca torta só saem faíscas, previsões, alarmes, bobagens com gosto de fel que escorre pelos lábios sem que eu sequer me dê conta. E este amargo não me pertence, é bom que se diga.
Este gosto amargo que sinto na sua presença eu carrego feito um fardo, herança, culpa, talvez. Por isso, quando você vai embora, eu sinto tanto amor e tanto medo. Quando você está aqui, o relógio corre depressa. Corro a esconder os ponteiros, mascarar o barulho. Mas o tempo do mundo é outro.
Bem diferente do meu. Eu penso como um relógio, durmo com um despertador e tenho muita preguiça de acordar.
Quando você chega, penso que é coisa de obrigação. Quando você vai embora, eu sei que perdi o presente. E que, desavisada e mal-educada, não abri na sua presença. Sou o pote de geleia no pacote em cima da mesa. Uma interrogação. A fechadura que precisa ser azeitada para então abrir.
Sempre fugi dos presentes, do presente. E das palavras ditas. Nunca escritas. Eu me besunto de silêncios. Mas aprendo que o presente, valioso, só chega pra quem mergulha na ninharia do instante. O presente que é feito de todas as ausências, de tudo aquilo que nunca suportei. Mas vivi.
Por isso ainda sofro do passado que me inunda. Somos tecidos pelo mesmo fio. E isto talvez o incomode. Então eu lhe escrevo. Talvez, como disse o poeta, para suturar as vivências e evitar que elas caiam no chão, como roupas dos cabides.
E saiba que aquilo que a vida nos dá não é o que nos determina, apenas o que nos inicia. O que nós mesmos nos damos é o que pode virar o jogo. E tenha certeza: você nunca estará só.
Mesmo que, por algum despropósito ou por pura bobice, eu nunca lhe diga. Mãe é bicho esquisito.
Quando o ninho fica vazio, se encolhe, espicha, dobra, esconde, briga e chora. Dizem que é uma síndrome. Mas, pensando bem, talvez seja só um muxoxo. Dá – mas com carinho – e passa.