Nos céus deste nosso Brasil varonil, fogos coloriram a noite, champanhes foram abertas, taças tilintaram, pais abraçaram seus filhos e vice-versa. Muitos ficaram de pileque, ora se não!
É Ele que vem vindo, assim como quem não quer nada, mas, na verdade, querendo tudo... Quer nossa esperança. Nossa tolerância. Maior solidariedade menos irritação , mais acolhimento àqueles que julgamos diferentes dos padrões, ditados por regras dos humanos: “branco é branco, preto é preto, índio é índio, mulher é mulher, homem é homem – e não chora –, gays são aberrações demoníacas”.
Ao “que está por vir”, é costume chamar de Ano Novo. Mas, cá para nós, de novo, penso que 2015 não terá nadica de nada. Vislumbro-o, cada vez mais velho, repetitivo, confuso e caduquinho, fazendo os mesmos pedidos de sempre: “Sejam bons, meus filhos, caridosos. Sejam, pelo menos, coerentes com o que pregam e o que fazem. Pelo menos isso”. Qual o quê! Fingimo-nos de santos, vamos à missa, ao culto, e descumprimos a promessa de não nos deixarmos cair em tentações consumistas, irritamo-nos por quireras, continuamos a ostentar um vaidosismo exacerbado, contando sobre nossos feitos, enchendo nossas pages de selfies, ou o que é pior: curtimos e manifestamos os “kkkkkkkk” ou “rsrsrsrsrs” em piadas sobre gente gorda, gente sem dente, mulheres feias para os padrões culturais de beleza. Aliás, diga-se de passagem, que imagens de mulher são sempre as preferidas para a prática de “bulling digital”, sinal de que a sociedade machista ainda impera e, o que é pior, com a própria ajuda das mulheres. Há, ainda, os que fazem piadinhas sobre a opção sexual das pessoas. Por que aqueles indivíduos em que seu sexo (macho/fêmea), ao nascerem, não coincidiu com seu gênero (masculino/feminino), ao irem crescendo, o que resultou nos cidadãos homoafetivos, incomoda-nos tanto?
Pois uma vez mais está chegando outro ano: 2015. E vem vindo para nos lembrar de coisas muito mais importantes com as quais vale a pena nos incomodarmos: é preciso que fiquemos atentos aos rumos que o nosso Brasil está tomando, no conturbado cenário sociopolítico econômico em que estamos atolados até o pescoço, à atuação do Congresso Nacional, à gestão dos Ministros que estão sendo escolhidos pela presidente Dilma, desta vez, sucumbida nem tanto mais apenas pelos ditames de Lula, seu amo e senhor, mas pela necessidade de cumprir com os conchavos partidos políticos que a empurraram para sua incompreensível vitória. Com isto, sim, nós brasileiros temos de nos preocupar: como será o processo educacional do nosso País, com um ministro que já determinou que o professor público não deve e não pode se preocupar com o salário que vai receber, já que para ele, Cid Gomes, o magistério é uma carreira sacerdotal, uma opção para os bons samaritanos, para os heróis, idealistas e sonhadores abnegados, que não têm quaisquer necessidades de – vivendo numa sociedade capitalista – usufruírem dos mesmos bens a que outros profissionais têm acesso. Um ministro que quer nos meter goela adentro uma baixa estima pela nossa escolha profissional, dizendo-nos, em outras palavras, que fizemos opção para ser, vida a fora, uns coitadinhos, uns estropiados cidadãos de segunda classe, não merecedores de valorização salarial. Estamos nós, professores, enrascados com um ministro que assim pensa.
Há também uns outros ministros, com os quais 2015 pede que também fiquemos atentos. Eu, por exemplo, não sei como explicar para meu neto Matheus, que pretende cursar Educação Física, que o ministro dessa área será o senhor George Hilton, que, dizem, não sabe distinguir o que é handebol de basquete, o que me lembra seu colega da Igreja Universal, bispo Crivella, que, quando assumiu o Ministério da Pesca, declarou, orgulhosamente, que não sabia nem botar uma minhoca no anzol. Além disso, o cidadão anunciado para o Ministério do Esporte é aquele mesmo deputado do PFL que, em 2005, ao ser flagrado no Aeroporto de Belo Horizonte com R$ 976 mil embalados em 11 caixas, declarou que tal quantia eram os dízimos recebidos para a manutenção da sua igreja; mas, porém, contudo, todavia, vejam só: depois disso, o dito deputado dobrou seu patrimônio pessoal – não o da sua instituição religiosa. E quando meu neto Matheus me perguntar se não será este mesmo ministério que ficará encarregado pela organização das Olimpíadas, vou respirar fundo e dizer apenas: “Sim, este mesmo”. Nem sei se vou olhar nos seus olhos. Não tenho mais idade para enfrentar grandes surpresas...
Enfim, 2015 está nos mandando um claro recado: que abramos, sim, nossas mentes... que aguardemos, sim, grandes surpresas... E que, acima de tudo, estejamos com os ouvidos e os olhos bem abertos. Quanto às nossas bocas, ainda estou na dúvida, pois sempre ouvir dizer que precisamos falar menos e agir mais...