Faço minhas as palavras de Frei Betto, publicadas no “O Globo” de 01/01/2015: “Feliz Ano Novo aos que colecionam utopias, fazem das mãos arado e, com o próprio suor, regam as sementes solidárias que cultivam”.
Embora não tendo votado no governador eleito, torço e, se necessário, contribuirei com sua gestão na luta pela superação dos graves e crônicos problemas da saúde coletiva de nosso Mato Grosso do Sul (MS), tarefa à qual ele prometeu dar prioridade durante sua campanha eleitoral, promessa que esperamos seja cumprida. O primeiro requisito para superar esses gravíssimos desafios na área da saúde é assumir a sua existência. Dizer que os problemas não existem, ou que são de responsabilidade única e exclusiva do governo federal em nada contribuirá para a solução dos mesmos. Da mesma forma, encampar o discurso hegemônico de entidades representativas de uma única categoria profissional, por vezes carregado de forte e agressivo conteúdo ideológico, somente ajudará a desviar o eixo de discussão em busca de soluções práticas para alguns dos “nós” do Sistema Único de Saúde (SUS) em nosso Estado.
Seria impossível debater todos os problemas do SUS em MS neste espaço, razão pela qual optamos por priorizar alguns que, de forma arbitrária, julgamos estruturais. São aqueles que estão na base do processo saúde-doença ou na organização da rede assistencial e que muitas vezes temos dificuldades em identificá-los.
Dois dos principais problemas estruturais dizem respeito à forma pela qual o SUS tem sido subfinanciado, e a forma como são tratados os trabalhadores da saúde, sem os quais não existiria esse Sistema. Em outro texto debateremos as condições de trabalho, remuneração, carreira e formação continuada daqueles que têm a nobre missão de formular, gerir e executar as ações de saúde em nosso Estado. Da mesma forma, também retornaremos ao tema do financiamento do sistema.
Hoje, conversaremos sobre o modelo de atenção à saúde ainda existente em nosso Estado. Em que pesem as inúmeras tentativas em superá-lo por meio das redes de atenção à saúde, esse sistema persiste arraigado em nosso meio. Trata-se de um modelo de assistência historicamente alicerçado em uma rede hospitalar, e por isso focado na doença e na cura e não na promoção e prevenção da saúde. Sem hospitais, o sistema jamais atenderia na sua plenitude as demandas de saúde da população. O fato de ser baseado em hospitais significa, para os nossos padrões atuais, que está majoritariamente composto por duas profissões: médicos e enfermeiros. Duas importantíssimas categorias profissionais, sem as quais jamais existiria ou existirá sistema de saúde em qualquer país. É fundamental entender que saúde é algo muito complexo, cuja promoção, prevenção, manutenção e recuperação são responsabilidades de diversas categorias profissionais, que deveriam atuar sempre como equipes horizontais, sem supostas “hegemonias”.
Por outro lado, ao longo das últimas décadas, o mundo e juntamente com ele o Brasil, vem passando por rápidas e importantes transformações, em especial em seu perfil de adoecimento e de mortes, o que vem exigindo novas formulações relacionadas com a organização dos sistemas de saúde. Nesse novo modelo deve-se priorizar a estruturação de redes de atenção, alicerçadas na atenção básica, contando com sólido suporte de ambulatórios e de centros de diagnósticos especializados, distribuídos de forma regionalizada, sempre de ampla composição multiprofissional.
É inconcebível uma pessoa ficar até um ano ou mais aguardando uma consulta ou um exame com especialistas, e o que é pior: tal espera ser considerada “natural”. Por isso, não tem sentido falar em redes de atenção sem que exista esse suporte ambulatorial, ficando as estruturas hospitalares como retaguardas para casos que, de fato, delas necessitem. A implantação de um modelo dessa dimensão representa um novo desafio para os gestores do sistema de saúde de nosso Estado.
Para finalizar, deixo como sugestão à reflexão uma frase de um amigo e companheiro com quem tive o privilégio de trabalhar e conviver na militância em defesa da Reforma Sanitária. Trata-se de Sérgio Arouca, ex-presidente da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e ex-deputado federal pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB): “A batalha sanitária é uma questão suprapartidária; nenhuma pessoa, instituição, partido, agrupamento, categoria ou entidade enfrenta sozinha essa luta”.