Quando eu trabalhava como bancário, vivi ou presenciei algumas situações com fortes conotações de humor e absurdo, como esta, dos meus tempos no Banco Agro Pecuário de Campo Grande, o saudoso Banagro:
Certo dia atendi a um cidadão bem simplório e idoso, que desejava abrir uma conta e fazer um depósito. Ele disse que nunca tivera conta em banco até então e guardava em casa suas economias de muitos anos, herança recebida de seu pai, segundo ele. Queria depositar o dinheiro para receber um “jurinho”. Naquele tempo os bancos ainda pagavam juros sobre os valores depositados em contas correntes. Pedi-lhe os documentos pessoais, preenchi os formulários exigidos e colhi sua assinatura, por sinal “desenhada” no papel com grande dificuldade. Ao preparar a ficha para o depósito propriamente, indaguei-lhe o valor a depositar. Ele, então, colocou sobre o balcão uma sacola de pano e dela foi retirando pacotes de cédulas de dinheiro, pedindo que eu o contasse, pois ele não sabia ao certo quanto tinha ali. Perplexo, observei que todo o dinheiro era representado por cédulas do antigo real, ou “mil réis”, a moeda brasileira em circulação até a instituição do “cruzeiro”, no ano de 1942.
Esclareci ao cidadão que aquele dinheiro não tinha mais nenhum valor e não poderia ser aceito. Ele ficou surpreso e não acreditou, insistindo em fazer o depósito. Reafirmei a impossibilidade de aceitar seu dinheiro e ele ficou zangado, recolocou tudo na sacola e saiu resmungando que iria procurar outro banco.
Outras duas situações parecidas aconteceram quando eu já laborava no antigo Banco do Estado de São Paulo, o Banespa, já narradas em meu livro publicado em 2011, mas que valem a reprodução:Um conhecido cliente chegou ao balcão e pediu ao atendente para preencher o formulário para um depósito em dinheiro, de trezentos e cinquenta mil cruzeiros. Feito isso, levou o dinheiro ao caixa e efetivou o depósito. Em seguida, voltou ao mesmo funcionário e pediu: “Agora, ‘enche’ um cheque pra mim, que quero tirar cinquenta mil”. O funcionário retrucou, um tanto impaciente: “Mas como, o senhor acabou de depositar trezentos e cinquenta mil!” E ele: “Não, eu quero tirar do que já estava aí, não do que depositei agora”. O funcionário quase teve um surto.
Outro cliente pediu para saber o saldo de sua conta. O atendente deu-lhe a papeleta de requisição para assinar e a encaminhou aos setores competentes para conferência de assinatura e preenchimento com o valor existente. Em seguida, entregou-a ao solicitante. Este, então, pediu que fosse preenchido um cheque naquela exata importância, para ser sacada no caixa. Feito isso, o cheque seguiu os trâmites internos até chegar ao caixa para pagamento. Recebendo o numerário, o cliente postou-se a um canto do balcão e conferiu o montante, até os centavos. Em seguida dirigiu-se ao mesmo atendente e falou: “Tá certinho. Agora ‘enche’ um depósito, que quero guardar ele de novo. Só queria conferir”. Parece piada, mas é a pura verdade!
Advogado e escritor
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