Vivemos numa sociedade urbanizada na qual a ideologia dominante é o neoliberalismo. O sistema de relacionamento é o individualismo. O maior atrativo é o consumismo. Os laços afetivos são cada vez mais frágeis e, como consequência, as pessoas se tornam cada dia mais carentes e vulneráveis.
A comunicação se faz via virtual. Falta o olhar nos olhos e o poder dizer as verdades que se pensam e os anseios que se alimentam. Falta o sentar lado a lado e escutar o que precisa ser escutado e analisar o que está sendo pensado. Pensa-se pouco. Age-se mais por instinto do que por raciocínio.
A imaginação é mais determinante do que a razão.
A identidade da pessoa, embora possua documentos que comprovem, fica fragilizada por falta de conteúdo intelectual, por falta de argumentos racionais e por falta de maturidade nas propostas. Faltam propostas sólidas e convincentes.
E o ser humano sofre com a fragilidade de seus pensamentos, sofre com suas indefinições afetivas e sofre com tantas inseguranças e incertezas. Pois sua mente encontra inúmeras dificuldades em elaborar raciocínios que lhe garantam solidez em suas decisões.
E no campo da fé? Como nos encontramos? Estamos num ambiente de tais possibilidades que não está sendo fácil cultivar uma fé única e sólida. São muitas as propostas. São incontáveis as ofertas e os convites. Estamos sendo solicitados de todas as maneiras e de todos os meios a optar por essa ou por aquela organização religiosa.
São igrejas, são templos, são mesquitas, são sinagogas e tantas outras organizações e entidades solicitando adesão e participação. Todas com suas normas e seus regulamentos. Todas oferecendo possibilidades e vantagens. E todas com um só objetivo: garantia de um reino de felicidade e de glória eternas.
Algumas dessas organizações e entidades chegam a criar um ambiente tão emotivo que convencem seus adeptos a se desfazerem até dos bens materiais, para se tornarem os mais ricos dos bens espirituais. Será mera ilusão? Ou será uma verdade?
Sabemos que Deus não exige grandes renúncias nem sofridos sacrifícios. Ele quer corações generosos, fraternos e solidários. A recompensa não é uma conquista pessoal. É, isto sim, um gesto do amor de Deus. Enquanto estivermos no mundo dos humanos, teremos de lutar e contribuir por uma sociedade mais justa e mais solidária. O que nos for dado a realizar deveremos realizá-lo em favor dos demais, sem se preocupar com recompensas.
O Mestre deixou claro quando nos alertou: “O que fizerem ao menor dos meus irmãos é a mim que o fazem” (Mt. 25,40). Aqui já está a recompensa. Não queiramos negociar com Deus. Deus não se compra nem se vende. O paraíso não se compra nem se vende. A felicidade não se compra nem se vende.
Tudo quanto nos for dado a realizar, seja realizado com todo o amor possível, alimentando a esperança, que é certeza de estar em tudo e sempre em comunhão com Deus. Quanto mais humano tanto mais divino em seu ser. Essa será a identidade sonhada.