Todos os fins de ano eu viajo para rever parentes distantes e amigos queridos, assim como outras tantas pessoas no Brasil e no mundo. São corações separados por distâncias geográficas, mas próximos, batendo em um mesmo pulsar.
Com eles, partilho a alegria do reencontro, os sorrisos e olhares de saudade, assim como as conquistas e dificuldades vivenciadas e enfrentadas durante as ausências. Nestas ocasiões, sinto-me um aprendiz, ao ouvir as histórias repletas de lágrimas e sorrisos, que nada mais são do que a prova viva do quanto está em nossas mãos o poder de complicar ou simplificar a nossa existência.
Relacionamentos truncados, atitudes mal interpretadas e gestos intempestivos são pedras que nós mesmos colocamos à nossa frente. E, ao trilharmos o caminho da vida, comumente tropeçamos nestas, esquecendo que a nossa falta de compreensão, paciência, tolerância e o amor foram responsáveis por hoje elas estarem lá.
E as palavras? Estas são poderosas, e quando ditas sem pensar, cortam fundo a carne e causam, na alma, feridas difíceis de cicatrizar, mesmo com o passar dos anos. Os golpes que mais machucam vêm justamente dos que mais amamos, sejam parentes, pais, filhos, irmãos, netos ou mesmo amigos queridos.
Estas pessoas apagam de suas memórias os episódios em que um dia foram por nós acolhidos, amados e socorridos ao se afogarem em ondas de desespero, como se nada mais do passado importasse. Agem movidos pela imaturidade, pelo egoísmo, pela inveja e pelo ciúme, o que corrói as relações de afeto e respeito. Ao escutar ofensas dos filhos, injúrias dos pais ou desaforos dos irmãos, sentimos no coração como se morrêssemos um pouco por dentro.
A perda dos valores éticos e crença no relativismo do que é certo ou errado, a busca excessiva do prazer como propósito de vida, a ansiedade e a ambição enfraquecem e apodrecem os laços que unem as famílias, tornando-as mais propensas à dissolução e falta de diálogo.
Em cada uma das visitas que faço, onde prefiro ouvir mais e falar menos, sou testemunha da perda de sensibilidade em relação à situação e dor do outro, acompanhada da falta de espiritualidade no meio, o que enfraquece a alma e a torna mais susceptível à dor e às tentações do mundo. Pouco a pouco se perde o senso crítico, e qualquer problema transforma-se em um tormento que tira o sono, a fome e a paz.
Desafio você a, neste início de ano, refletir o que de bom e de mau fez ao próximo, especialmente aos que mais ama. E, nesta reflexão, ao identificar onde falhou, não fique apenas no remorso e arrependimento.
Lembre-se que o primeiro passo é não esconder as mágoas e rancores dos relacionamentos debaixo do tapete, mas sim reconhecer, perdoar e jogar para fora do seu coração tudo o que não acrescenta. Isso lhe permitirá sorrir com sinceridade no reencontro, sem medo de levantar a velha poeira da desavença.
Dizem que, para pessoas desconhecidas, por medo da discórdia, não dizemos a verdade e nos escondemos por trás de fofocas veladas e fingimentos; enquanto que, com nossa família, dizemos a verdade nua e crua sem medir consequências, movidos pela sensação de liberdade. No entanto, muitas vezes nos enganamos ao confundir a sinceridade em família com desrespeito e desamor.
Não se esqueça que existem formas de dialogar francamente mantendo os limites da concórdia, e que é em sua família que você encontrará o amor e perdão verdadeiros. Mesmo quando os ferimos, eles sempre nos amarão apesar de todas as imperfeições e fraquezas, e serão sempre o nosso ponto de chegada e de partida nas calmarias e tempestades da vida.
*médico, escritor, palestrante, compositor – www.fabioaugustooficial.com.br