Artigos e Opinião

OPINIÃO

Hermano Melo: "Sobre as notas zero do Enem 2014"

Jornalista e professor

Redação

16/01/2015 - 00h00

Dados recém-divulgados pelo MEC revelam que, no Enem 2014, de 5.934.034 textos de redação corrigidos cujo tema foi “Publicidade infantil no Brasil”, 529.373 candidatos (8% dos inscritos) tiraram nota zero. Ao comparar com os dados do Enem 2013, quando o tema foi “Os efeitos da implantação da Lei Seca no Brasil”, com menos inscritos, de 5.049.248 redações corrigidas 481 tiveram nota mil e apenas 106.742 delas obtiveram nota zero.  

Entre aqueles que zeraram a redação no Enem 2014, 13.039 copiaram textos motivadores da prova; 7.824 escreveram menos de sete linhas; 4.444 não atenderam ao tipo textual solicitado; 3.362 zeraram por parte desconectada; e 955 por ferirem direitos humanos. Outros 1.508 por motivos diversos. E apenas 250 conseguiram a nota máxima de mil pontos. 

Ao tentar justificar o porquê de tantos zeros no Enem 2014, o ministro da Educação, Cid Gomes, argumentou que “o tema de 2013 (Lei Seca) foi uma questão muito debatida, muito discutida, a mídia focou muito no tema, enquanto o de agora (Publicidade Infantil) não teve um grande processo de discussão como o de 2013”. E completou: “Não diria que o tema deste ano foi mais difícil, mas sem dúvida não teve um grau de discussão nacional como o de 2013”. 

Para o Inep, entre 2013 e 2014 houve uma queda no desempenho de 9,7% entre os concluintes do Ensino Médio, com 1.485.320 candidatos. Segundo o ministro, “essa queda merece atenção da academia para que se entenda o porquê, já que em um ano não houve grandes variações de financiamento ou de corpo docente no Ensino Médio suficientes para explicar a queda de desempenho”. 

É claro que tanto a questão levantada pelo ministro de Educação sobre a maior ou menor discussão dos temas em pauta em um e noutro Enem (Lei Seca e Publicidade Infantil) quanto os quase 10% de queda no desempenho dos alunos que concluíram o Ensino Médio, detectados pelo Inep, explicam em parte as dificuldades que os estudantes tiveram na elaboração de suas redações e no número de zeros na prova de 2014. 

No entanto, é possível que outros fatores tenham também contribuído de forma decisiva para os fracos resultados obtidos no último Enem, como, por exemplo, o aumento significativo no uso das redes sociais – particularmente do WhatsApp – por esses jovens nos últimos anos.

É que com raras exceções a maior parte das redes sociais, como, por exemplo, o Facebook, estimula seu principal público-alvo – os jovens – a utilizarem no dia a dia e de forma intensa muito mais imagens que textos na descrição de eventos. E mais: quanto mais curtos eles forem melhor!

Ora, como esperar então que os jovens que acessam diuturnamente as redes sociais sejam capazes de elaborar textos complexos e que atendam às exigências das provas de redação do Enem?  

Assim, diante de tal realidade – que deverá, inclusive, fazer parte do cotidiano dos jovens ainda por um bom tempo à frente –, que tal incluir nas provas de Redação do Enem nos anos vindouros componentes imagéticos no seu interior valendo pontos. 

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