A infância grava no inconsciente um acervo misterioso de acontecimentos. O mundo é novo, as palavras são desconhecidas, e sem os “filtros” mentais de que dispõem os adultos, todas as imagens dos primeiros anos depositam-se no baú da memória como uma herança que nos acompanha pela vida. Tempos depois ela ganha forma na personalidade, aparece nos gostos, nas preferências políticas, sexuais, religiosas – e, em última instância, no próprio formato das sociedades. O berço, como sempre, molda o caráter.
Mirando a mente das crianças – para assim chegar ao bolso dos pais –, a indústria cultural desenvolveu nas últimas décadas inúmeros produtos de entretenimento: desenhos animados, filmes, seriados, programas de TV, num acúmulo impressionante de imagens e discursos que se misturam ao cotidiano para, enfim, transformá-lo. Uma pesquisa recente revelou que 86% das crianças brasileiras consomem, em média, 3,7 horas do seu tempo livre assistindo a algum programa de televisão. Os pais, cada vez mais capturados pelas jornadas excessivas de trabalho, tornam-se coadjuvantes na educação dos filhos na exata medida em que o mundo “encantado” da TV assume um indesejado protagonismo.
A “pedagogia” da mídia, no entanto, tem lá as suas malícias. Ela descobriu que não há forma mais eficaz de direcionar o que pensam e desejam as pessoas do que embutir, na fala inocente de um personagem qualquer – especialmente aquele com quem o público se identifica –, um discurso que defenda um interesse geralmente inconfessável. As crianças, coitadas, são as vítimas preferidas.
Pela boca do desenho animado – em geral um animal simpático que disfarça seu caráter humano travestindo-se de bicho –, saem verdadeiros manuais de como comportar-se, julgar e vestir. O “espetáculo” – como ensinava Guy Debord, teórico do maio de 1968 francês – não é um mero conjunto de imagens, mas antes de tudo uma relação social entre pessoas mediatizada por imagens: algum sujeito oculto, com algum objetivo, usa a fantasia e a ficção como ferramenta para convencer – isto é, para produzir algum resultado social.
Atrás deste sofisticado enredo há a defesa enfática de um modelo político de sociedade. No universo da cultura infantil de hoje, por exemplo, faz sucesso a história de meninas pôneis que vivem num “distante” reino com vassalos e suseranos, plebeus e aristocratas, que lutam pelo poder com sua magia e adoram desfiles de moda; em outro caso, um grupo de jovens animados – todos caucasianos – cantam, dançam e, de quebra, fornecem o modelo estético do mauricinho e da patricinha para crianças de três anos; há também a história de monstrinhas descoladas, mortas-vivas de estilo contestador, que mostram que até mesmo o “underground” pode ser inserido no jet-set do consumo. Nada disso é exatamente grave visto de forma isolada; mas, em conjunto, sujeito a uma exaustiva repetição, converte-se perigosamente em ideologia ou visão de mundo.
Há trinta anos, as coisas não eram diferentes. O maniqueísmo da cultura ocidental sempre apresentou, para a criança, a violência como a arma privilegiada da civilização contra a barbárie. Na década de 1980, por exemplo, havia adoração pela saga do homem loiro que, com sua espada, poderes e retidão moral ultra-humanos, lutava contra o homem-esqueleto que queria inexplicavelmente subverter o mundo. O sucesso dessa série foi tanto entre os meninos que levou os produtores do desenho a criar uma irmã (também loira) para ele, inserindo as meninas daquela geração no mesmo ambiente. Por analogia, não chega a impressionar que muitas pessoas de hoje vejam o conflito cultural entre ocidente e oriente, entre cristãos e muçulmanos, como uma luta do bem contra o mal: Grayskull, afinal, não é tão longe daqui.
Saindo da tela da TV para encarnar nos brinquedos, a ideologia dos desenhos animados passa então a habitar o cotidiano como um boneco físico. Uma metáfora do poder da cultura em sair do mundo das ideias, abstrato, para transformar a vida concreta, de carne e osso. Nas datas, nos aniversários, no natal – às vezes como prêmio pelo bom comportamento –, presenteiam-se estes personagens culturais que, amontoados no velho baú do quarto, transbordam até povoar a moral.
Anos depois, dissolvidos no subconsciente, ganham vida própria nas ideias e na visão de mundo que julgamos nossas na vida adulta. A vida, perigosamente, imita a arte – e inteligente é quem está atento para dela não se tornar refém.