Artigos e Opinião

OPINIÃO

Ângela Maria Costa: "Correr prá onde e para quê?"

Professora doutora da UFMS

Redação

03/02/2015 - 00h00

Vamos dar início à corrida maluca! A partir de fevereiro, veremos de novo, nas ruas, estudantes com seus uniformes novinhos (escola privada, é claro!), mochilas cheinhas de cadernos e livros, maioria com rodinhas porque estão pesadas demais com tanta “sapiência”!

As escolas, com raríssimas exceções, transformaram-se em uma máquina de fazer doidos!  É preciso entrar na competição! “A outra escola conseguiu se sair melhor no exame do Enem, não podemos deixar acontecer de novo”. Isso porque, atualmente, as escolas são medidas pela quantidade de alunos que conseguem ENFIAR na universidade e fazem questão de expor isso em outdoors. A última coisa que se pensa é na criança e nesse jovem abarrotado de tarefas e simulados. Pasmem, desde a Educação Infantil! Estamos como um trem em alta velocidade, sem condutor e sem freios! Fruto da civilização ocidental que induziu no homem o mito do crescimento econômico, baseado no binômio – ganhar e competir. Esse é o presente envenenado que estamos deixando para nossos filhos e netos – competição, lei do mais forte, sem se importar com o outro. O que interessa é se dar bem! No passado, as crianças trabalhavam nos campos e, depois, nas fábricas da Revolução Industrial. O século XX testemunhou a ascensão da Criança sem Limites e agora estamos ingressando na era da Criança Gerenciada. Estamos criando a geração mais conectada, mimada e monitorada da história, com crianças que possuem uma agenda mais lotada que a dos pais: inglês, natação, tênis, kumon... Recentemente, as Nações Unidas fizeram um alerta que uma em cada cinco crianças já sofre de algum distúrbio psicológico, e a Organização Mundial da Saúde estima que, por volta de 2020, a doença mental será uma das cinco maiores causas de morte ou incapacidade entre os jovens. Pesquisas em todo o mundo sugerem que a depressão e a ansiedade infantis, que provocam o abuso de substâncias, a autoagressão e o suicídio, agora são mais comuns não só nos bairros pobres, mas nos apartamentos e casas de famílias abastadas, onde a classe média ambiciosa gerencia o projeto de vida de seus filhos.

Estou na corrente contrária há muito tempo. Sempre fui contra essa correria. O respeito ao ser criança sempre foi uma preocupação nas minhas formações de professores. Não é possível que os pais continuem coniventes e até corresponsáveis por esse massacre mental dos próprios filhos! Já conversei com diretores, tanto de escolas privadas como públicas, que argumentam ser necessário acompanhar a onda da competitividade, porque senão terão que fechar a escola. Infelizmente as escolas estão sendo feitas para agradar aos pais (bolso) e, quase nunca, as crianças. Que tipo de gente estamos formando?! Eis a pergunta que precisamos fazer.

Comungo com a ideia de um grupo que vem fazendo um movimento contrário, o movimento SLOW, que já há alguns anos desenvolve uma vasta literatura e correntes de pensamento a favor do tema devagar – vagareza – slow – desaceleração. É possível fazer, assim, baseada nesses princípios, uma reflexão sobre o cotidiano escolar, traçando novas estratégias didáticas e centradas no PERDER TEMPO PARA: conversar com o aluno, e assim conhecê-lo melhor; usar caneta e escrever à mão, com o propósito de escrever bem e ter belas escritas; andar a pé pela cidade, indispensável maneira para se conhecer um território bem e profundamente, tanto histórica como geograficamente; trocar as cópias xerocadas por desenhos criativos, recuperando a originalidade e criando suas próprias tabelas, esquemas e organogramas; observar as nuvens no céu e a natureza ao seu entorno; escrever e desenhar cartas e cartões; ouvir músicas de qualidade e fazer hortas.

Chegou a hora de os adultos sabidos se retirarem um pouco e permitirem que as crianças sejam elas mesmas, abrindo espaço para que possam respirar, ficar à toa, relaxar, assumir riscos, cometer erros, sonhar, ter prazer com suas próprias coisas. É preciso puxar o freio, e já! Coragem de dizer BASTA! CHEGA DE BURRICE NA EDUCAÇÃO!

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