João Dias não é apenas a denominação de um pequeno córrego assoreado que desagua à margem direita do Rio Aquidauana, após cortar, a oeste, a cidade do mesmo nome. É bem mais que isto. É o nome de uma figura emblemática, cuja história pode ser assim resumida: quando criança, foi raptado e criado entre os índios; muitos anos mais tarde, após intensas buscas, foi trazido para a convivência dos seus parentes de sangue, depois de ser encontrado, quase índio.
Debbie foi uma menina raptada por comanches, no Texas, em 1968, e procurada por seu tio Ethan Edwards e seu irmão adotivo Martin Pawley, incessantemente, por anos a fio, até ser encontrada, quase-índia.
A história de João Dias você lê no livro de Aglay Trindade Nantes, “Morro Azul – Estórias Pantaneiras”, reeditado pelo Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul – IHGMS, localizado na Rua Calógeras, esquina com a Avenida Mato Grosso. Vale a pena ler.
A história de Debbie você pode ver na tela grande, no faroeste “Rastros de Ódio” (The Searchers, 1956), direção de John Ford, no Cinemark, que de uns tempos para cá tem apresentado clássicos do cinema. Vale a pena ver.
Ford, baseado na história de Cynthia Ann Parker, raptada pelos comanches em 1836, fez uma obra belíssima, com locações de tirar o fôlego no Monument Valley, de um humanismo contagiante, dramático, tenso do começo ao fim. John Wayne, o anti-herói do filme, odeia de morte os índios. Mesmo fazendo uma penosíssima busca para encontrar sua amada sobrinha (Natalie Wood), ao se deparar com ela, índia, é tomado de uma fúria para matá-la, bem como o chefe índio Scar (tradução: “cicatriz”), nome metáfora no contexto da sociedade norte americana.
Aglay, ao falar do Morro Azul, localizado na encantadora paisagem de Piraputanga e Camisão, transmitindo-nos a história que sua família guardou na memória, nos revela um atormentado João Dias adulto, em busca de sua identidade, branco por fora, mas índio por dentro, passando semanas alongado no mato, longe de todos. Chegou à velhice beirando à loucura. As famílias que fundaram a cidade de Aquidauana (1892) compraram suas terras para ali instalar o novo núcleo urbano.
Não se pode contar a história do Cinema sem citar “Rastros de Ódio”. Não se pode contar a história do Brasil sem refletir sobre a vida de João Dias Cordeiro.