Embora os amantes
estejam mortos
E a morte não terá poder.
A morte não terá poder
O amor permanecerá
(Dylan Thomas)
Foi tudo muito rápido e muito triste. O telefone tocou de repente, e de muito longe uma voz me dizia que ele estava morto. Em minha cabeça, como num confuso jogo de espelhos, cenas de passado e presente confundiam-se em difícil coordenação.
Na lembrança, centro de construção de um novo perfil de excitação neuronal, que nos permite reconstruir, com base do que vivemos, soubemos e dissemos o que marcou nossa vida, fervilhavam recordações...
Dessa maneira, regressei a uma sala de aula dos anos 1950 do Colégio Estadual Maria Constança, onde pude rever meu aluno Israel, na agitação da adolescência, assistindo a uma aula de Português. Como sempre, respondia rápido e de forma correta às perguntas de uma análise sintática, que os colegas achavam difícil.
Inteligência invulgar, memória de computador, sabia tudo na ponta da língua, era cobra em Matemática, o que lhe permitiu seguir com distinção a carreira militar, obtendo o diploma de oficial da aeronáutica, na qual se aposentou na qualidade de coronel-aviador.
Como num filme, a cena passa a decorrer nos dias de hoje, e lá estamos ele, eu e os alunos da classe 1956, em volta da mesa de um restaurante ao lado de Isaías Ferro, José Carlos Lemos, Leida, José Nogueira, Ana Alice, Ivanir, Irany Bucker José Carlos Carrato, Zulene e outros colegas liderados por Israel da Silva Cavalcanti, reinventor de um tempo que nos mantinha unidos às paredes de uma escola, na entrada da qual um dia se juntaram os ex-alunos para plantar uma muda de pau-brasil e declarar fidelidade aos professores de quem se sentiam agradecidos .
A ideia das reuniões surgiu para aliviar as dores do professor Luis Cavalon da perda de um filho, consequência de um assalto. Com entusiasmo, agregaram-se aos ex-alunos os professores João Pereira da Silva, Rosa Melke, Aparecida Bogalho, Nagib Raslan e Maysa Grise, num clima de recreio, arrebanhados por ele que queria homenagear os que de forma responsável tinham sabido cativar os alunos.
Com organização e simpatia comandava os encontros aos quais nenhum de nós gostava de faltar.
A esse primeiro, muitos se sucederam pelos anos afora. Em minha existência, que vai ficando tão longa, nunca conheci alguém tão dinâmico, tão amigo e acima de tudo tão generoso. Marcava as reuniões e sempre aparecia com algum presente, geralmente uma fruta, para tornar mais agradável o encontro. Como se explica que, depois de ter voado por mais de 25 anos em missões da Força Aérea Brasileira, em voos de salvação de inúmeras vidas, tenha tombado de repente, eletrocutado ao tocar um fio de luz com a vara, que costumava usar para derrubar as frutas que colhia para nós?Foi vítima do mesmo imprevisível que nos aguarda na esquina das distrações de uma vida, que minutos antes parecia segura e inviolável.
Como escapar às coisas improváveis? Nem os mais sábios o conseguem. Até o momento, sinto-me em estado de choque, dominada pela dor de ter perdido um amigo, uma personalidade das mais autênticas, que passou pela estrada de meu viver. Recentemente, quando no lançamento da “Crônica dos Quatro”, foi dos primeiros a chegar, na alegria de prestigiar a obra da antiga professora.
Ainda não acredito que tenha desaparecido, porque sei que a morte não atinge os iluminados pela graça, pela eternidade, pela capacidade de recompor o mundo pelo poder da bondade, da generosidade.
Israel da Silva Cavalcanti está mais vivo do que nunca em nossa lembrança, em nosso coração, por tudo que nos deixou com seu comportamento despojado de ambições de desejos de inúteis grandezas. Uno-me à dor de sua amada esposa Daisy e à dos três filhos nesse momento impossível de ser descrito. Desde 22 de janeiro, habita as planícies da eternidade onde contempla nossa saudade.