Artigos e Opinião

CENAS

Maria da Glória Sá Rosa: "A Força do Imprevisível"

Maria da Glória Sá Rosa:<br> "A Força do Imprevisível"

Redação

03/02/2015 - 00h00

Embora os amantes 
estejam mortos
E a morte não terá poder.
A morte não terá poder
O amor permanecerá
(Dylan Thomas)

Foi tudo muito rápido e muito triste. O telefone tocou de repente, e de muito longe uma voz me dizia que ele estava morto. Em minha cabeça, como num confuso  jogo de espelhos,  cenas de passado e presente confundiam-se  em difícil coordenação.

Na lembrança, centro de construção de um novo perfil  de excitação neuronal, que nos permite reconstruir,  com base  do que vivemos, soubemos e dissemos o que marcou nossa vida, fervilhavam recordações... 

Dessa maneira, regressei a uma sala de aula dos anos 1950 do Colégio Estadual Maria  Constança, onde pude rever meu aluno Israel, na agitação da adolescência, assistindo a uma  aula de Português. Como  sempre, respondia rápido e de forma correta às perguntas de uma  análise sintática, que os colegas achavam difícil.

 Inteligência invulgar, memória  de  computador, sabia tudo na ponta da língua, era cobra em Matemática, o que lhe permitiu  seguir com distinção a carreira militar, obtendo o  diploma de oficial da aeronáutica, na qual se  aposentou  na qualidade de coronel-aviador.

Como num filme, a cena passa a decorrer nos dias de hoje, e lá estamos ele, eu e os alunos  da classe 1956, em volta da mesa  de um restaurante ao lado de Isaías Ferro, José Carlos  Lemos, Leida,  José Nogueira, Ana Alice, Ivanir, Irany Bucker  José Carlos Carrato, Zulene e outros colegas liderados por Israel da Silva Cavalcanti, reinventor de um tempo que nos  mantinha unidos às paredes de uma escola, na entrada da qual  um dia se juntaram os ex-alunos   para plantar uma muda de pau-brasil e declarar fidelidade aos professores de quem se sentiam agradecidos .

A ideia das reuniões surgiu para aliviar as dores do professor Luis Cavalon da perda de um filho, consequência de um assalto. Com entusiasmo, agregaram-se  aos ex-alunos os professores João Pereira da Silva, Rosa Melke, Aparecida Bogalho, Nagib Raslan e Maysa Grise,  num clima de recreio, arrebanhados por ele que queria homenagear  os que de forma  responsável tinham sabido cativar os alunos.

Com organização e simpatia comandava os  encontros aos quais nenhum de nós gostava de faltar.

A esse primeiro, muitos se sucederam  pelos anos afora. Em minha existência, que vai ficando tão longa, nunca conheci alguém tão dinâmico, tão  amigo e acima de tudo tão generoso. Marcava as reuniões e sempre aparecia com algum  presente, geralmente uma fruta, para tornar mais agradável o encontro. Como se explica que,  depois de ter voado por mais de 25 anos em missões da Força Aérea Brasileira, em voos de salvação de inúmeras vidas, tenha tombado de repente, eletrocutado  ao tocar um fio de luz com a vara, que costumava usar para derrubar as frutas que colhia para nós?Foi vítima do mesmo imprevisível que nos aguarda na esquina das distrações de uma vida,  que minutos antes parecia segura e inviolável. 

Como escapar às coisas improváveis? Nem os mais sábios o conseguem. Até o momento,  sinto-me em estado de choque, dominada pela dor de ter perdido um amigo, uma  personalidade das mais autênticas, que passou pela estrada de meu viver. Recentemente,  quando no lançamento da “Crônica dos Quatro”, foi dos primeiros a chegar, na alegria de  prestigiar  a obra da antiga professora.

Ainda não acredito que tenha desaparecido, porque sei que a morte não atinge os  iluminados pela graça, pela eternidade, pela capacidade de recompor o mundo pelo poder da bondade, da generosidade.

Israel da Silva Cavalcanti está mais vivo do que nunca em nossa lembrança, em nosso coração, por tudo que nos deixou com seu comportamento despojado de ambições de desejos  de inúteis grandezas. Uno-me à dor de sua amada esposa Daisy e à dos três filhos nesse momento impossível de ser descrito. Desde 22 de janeiro, habita as planícies da eternidade  onde contempla nossa saudade.

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