Nas “Memórias da Emília”, de Monteiro Lobato, há uma discussão entre a boneca de pano e Dona Benta sobre o que seria a verdade em um livro do gênero. Muito pragmática, a boneca vai dizendo que quem escreve memórias assume as coisas de jeito que o leitor fique fazendo uma alta ideia do escrevedor. E conclui, para uma estupefata Dona Benta: “Verdade é uma espécie de mentira bem pregada, das que ninguém desconfia. Só isso”.
Em outras palavras, verdade é a mentira em que todos acreditam. Pensei muito na Emília enquanto lia “O homem que amava os cachorros”, do escritor cubano Leonardo Padura. Passei metade das minhas férias lendo suas 589 páginas, nas quais se entrelaçam os fios de várias narrativas, sendo principais as que contam a vida de Trotsky e a de seu algoz, Ramón Mercader. Mas não pense o leitor que se trata de uma repetição do que conhecemos da história de ambos.
Padura vale-se da liberdade de ficcionalizar a história para contá-la aristotelicamente: como ela é; como dizem que é e como poderia ter sido. Deixo para o leitor a tarefa de decidir quais são esses momentos.
Hoje, mais do que nunca, somos nós que decidimos no que acreditar: nas coisas como elas são, como dizem que são ou, ainda, como parecem ser. A retórica tem cumprido seu papel com tamanha eficiência que fica fácil aceitar como verdadeiros determinados discursos. Mesmo porque, quem enuncia nem sempre é quem escreve, mas parece conhecer muito bem a última parte dedicada à encenação e sabe que ninguém prega no deserto.
Há um receptor pronto para ouvir. A partir daí, só rindo para não chorar, se pensarmos no vazio dos discursos políticos, no vazio de determinada produção literária, no vazio de relatórios finais, no vazio das letras de muitas músicas, no vazio das redações do Enem e por aí vai. O que nos caracteriza hoje é o discurso vazio e do vazio. Ou do rábula que encena uma fúria contra os interlocutores porque sabe que não tem razão. Ganha no grito. Já Padre Vieira, na sua santa sabedoria, podia alertar: “os ouvintes vêm à pregação como comédia e há pregadores que vêm ao púlpito como comediantes”. Rir é o melhor remédio, é grátis mas a graça é pouca.
Quem vai contar a próxima história? Minha preferência recai sobre os políticos que têm o dom de não dizerem absolutamente nada. Exploram frases de efeito que, na maioria dos casos, também não são verdadeiras. E o país inteiro sofre porque a maioria não quer dizer a verdade e nem reconhecer que pouco pode fazer diante da situação calamitosa a que chegamos em áreas essenciais. Eles vão, pobrezinhos, manchar suas memórias.
Penso que a melhor metáfora para tudo o que estamos vivendo no Brasil, em Mato Grosso do Sul e em Campo Grande está no nome de um dos nossos blocos de carnaval – Capivara Blasé.
Parece que já vimos tudo e de tudo, mas aguardemos: coisas piores virão. Já que perdemos o título de país do futebol, vamos tentar salvar o país do carnaval. Vamos botar o bloco na rua?