Certo dia ouvi uma infeliz e preocupante entrevista de um prefeito de um município de nosso estado (para não envergonhar seu povo, não cito), em emissora de rádio. O ilustre, aqui em anonimato, pois bem mais interessante que seu nome é o caso a ser tratado. O inegavelmente despreparado e equivocado político (como há desses!) se opunha a lei de que impõe investimento mínimo na educação, pelos municípios, tendo assim se manifestado: “... se você Joga (o grifo é do autor deste) tudo isso na educação, você não faz saneamento, nem obra alguma...”. O “tudo isso” a que o personagem se referia são os 18% (no mínimo), de lei, que o município deve aplicar na educação.
A expressão usada (joga) mostra a consideração que o então entrevistado tem pela educação (como tantos políticos). A quem pensa assim, indignado, e a todos, como alerta, é que me dirijo. Se a Lei estabelece um mínimo, está implícito o reconhecimento de que muitos (muitos mesmo) nem isso faziam. Para quem o mínimo é exagero, o razoável é absurdo e o máximo não existe. O investimento máximo (máximo mesmo) que se fizer em educação, diminui (e muito) o que se teria que jogar (jogar mesmo) em saneamento, por exemplo.
O inserido em um sistema educacional (conjunto de escolas digno deste nome), entende de saneamento, cuida sua higiene pessoal (fundamento básico do saneamento), se nutre (não só se alimenta), seleciona o lixo, não desperdiça, não depreda, enfim, poupa a administração pública do gasto (aqui é gasto, e só) com reposição do que é quebrado (iluminação,por exemplo), destinação do lixo (pedra no calçado de todo prefeito), evita a escassez (ou já é a falta) de água, porque conserva as ciliares, enfrenta a exploração imobiliária, porque não admite o loteamento desrespeitoso, sem percentual de vegetação, com ruas estreitas, coisa que o poder público costuma estimular, prevendo a pavimentação. Não raro, pela mesma razão, estimula, e até impõe, o “calçadão” (a encargo do proprietário).
Além de tudo isso e do tudo mais que o sistema educacional embasa, tem coisa ainda melhor o “educado” vota com a cabeça, não o estômago, Terá sido por isso que o entrevistado protestava contra o mínimo de lei? Se você está em dúvida, achando que a educação não resolve tudo, há que se considerar a saúde, por exemplo. Está equivocado.
A pediatria dos postos de saúde é, sempre, quadro simplesmente deprimente, noventa por cento devido à falta de educação, higiene (pessoal, alimentar e ambiental). O médico trata o paciente mas o ambiente para a onde a criança volta, e sobre o qual ele não tem o menor poder, anula o seu trabalho. Apresente esta afirmação à pediatria de um posto de saúde, ou de todos eles e você triste confirmação.
Sem educação (educação mesmo) não há saúde. Se você, querendo fazer o papel do “advogado do diabo”, me disser: o drama da condução pública não se resolve com a educação, eu lhe contradito. Um sistema educacional racional (como de seu dever) disponibiliza unidades escolares, niveladas em qualidade, inclusive de instalações, nos bairros. Com isto, uma população de escolares que se estressa tão precocemente (como isto é perigoso), ficando em trânsito tempo, no mínimo, igual ao que passa na escola, não estaria somando na lotação e no custo (alguém paga) do veículo de transporte público, não considerando a algazarra (falta de educação) que se registra, sintoma do estresse, também.
O transporte público, aliviado, com menos “incômodo” (pergunte aos motoristas) fluiria melhor. O chamado transporte escolar, comumente, impõe tempo considerável, estressante também, à criança mais favorecida economicamente. Calcule a média de tempo dessa criança, na condução e na escola, ela apenas um pouco (e só um pouco) melhor e seu custo é, no mínimo, igual ao da escola. Sabe qual é o estudante que está lá? Em alto percentual, é aquele cuja família está em esforço econômico hercúleo, para “fugir” da escola pública decadente há décadas.
A educação (digna deste nome) não resolve o drama da condução pública? Se não resolve ajuda, como nenhum outro recurso, resolver. Se você continuar querendo “atrapalhar” a alta consideração que merece a educação e lançar outra “provocação”, dizendo: não queira exagerar... a melhora na educação não vai melhorar a estatística do câncer....nem da doença mental. Não? O câncer tem fundamentação no estresse (aquele na condução para a escola), em alto percentual. Quanto à doença mental, estatisticamente mais grave que você imagina, aconselho ler Ângela Costa, em “Correr para onde e pra quê?” (Correio do Estado 03-02-2015)