Foi o escritor argentino Alan Pauls com seu livro, “História do cabelo”, que me encorajou a escrever sobre ele. O personagem do romance, assim como eu, não passa um dia sem pensar no cabelo. Se deve cortar muito, pouco, cortar logo, deixar crescer, não cortar mais, raspar a cabeça para sempre e resolver o dilema.
Como o personagem, também estou condenada a lidar com o assunto sempre que cometo a heresia de cortá-lo. E por mais estranho e dúbio que possa parecer, sou viciada em cortes. Volta e meia eu mesma pego a tesoura, até da cozinha ou de cortar as unhas, e começo a retirar o que considero “pontas sobrando”.
É claro que esta minha vocação, um tanto equívoca, para cabeleireira já me deixou em apuros várias vezes. E não raro tenho de procurar um salvador que conserte os caminhos tortuosos deixados por uma tesoura sem fio e uma mão sem talento.
Mas minha história com o cabelo não é de hoje. Desde criança, quando minha mãe me obrigava a cultivar longas madeixas feitas de cabelos castanhos e lisos, que a deixavam orgulhosa. Como não podia cortá-los, passei a fazer experimentos com os cabelos alheios.
Um dos primeiros foi os louros cachos de uma garotinha da vizinhança, de três ou quatro anos de idade, enquanto ela se distraia no seu troninho. E até hoje me lembro da mãe atônita, recolhendo os fios do chão e guardando num saco de papel pardo. Por algum tempo sempre que me viam, os vizinhos escondiam as tesouras – e as crianças.
Na adolescência, voltei à carga e passei a cortar o cabelo das amigas, de uma tia torta e até de namorado. E deles nunca recebi reclamação, é bom que se diga.
Mas no meu ninguém mexia. Muito menos a tia cabeleireira que, desconfio, teria tosado meu cabelo na primeira oportunidade. Quando finalmente me curvei à moda dos cabelos mais curtos, começou meu calvário.
Sentar na cadeira do salão era uma tortura. Ver meus cabelos caindo pelo chão me provocava arrepios e, não raro, crises de choro. E nem adiantava dizerem que cabelo é bem de raiz, que cresce. Por dias a fio, usava lenços na cabeça para esconder a vergonha. Até peruca já usei para disfarçar o corte.
Mas depois de um tempo eu achava um novo profissional, o cara perfeito, o mais cotado, a quem eu entregaria meu tesouro. No dia do corte, era um sucesso. Depois era o completo caos. O arrependimento, a amargura. O choro sem fim. Em meio à crise de identidade, eu lançava mão de todos os truques e cremes para fazê-lo crescer. Sem meu cabelo eu sentia que não existia. Era um ser sem vida.
O mundo era – e continua – sendo feito de cabelos. Eu os vejo a toda hora, nas revistas, nos comerciais, nos filmes, na rua. Principalmente em horas, como esta, que em menos de duas semanas tosei meus fios três vezes. Um por descuido, outro para concerto e o último por vício. E não obstante os comentários favoráveis, estou me controlando para não cometer o derradeiro. Tenho a leve sensação que ele ficaria melhor repicado. Ah esses vícios!