Artigos e Opinião

ARTIGO

Altemir Dalpiaz: "Agora como nunca"

Professor

Redação

18/02/2015 - 00h00

Nunca os flashes pipocaram tantas fotos em meio à escuridão da falta de sentido original. Nunca as lentes fotográficas captaram tantos sorrisos armados, automáticos e gélidos. Nunca a humanidade escreveu tantas apressadas e abreviadas palavras. Voltamos a curvar o corpo andando como zumbis pelas ruas das cidades. Perdemos o respeito pelos outros passeando nossos dedos pela tela de um aparelhinho na palma da mão. 

Nunca as pessoas vivas, de carne e osso foram tão invísiveis para nós como nesses últimos anos. Nunca estivemos tão míopes, querendo enxergar a realidade dos outros. Nunca fomos tão demasiadamente o que os outros querem que nós sejamos. Nunca rimos tanto sem achar graça.

Nunca dramatizamos e reclamos tanto  de coisas que sequer sabemos porque e a quem reclamamos. Nunca fomos tão alienados pelos interesses dos outros. Nunca pensamos tão pouco, tão curto e tão superficialmente como agora. Nunca falamos tão mal do tempo, do calor, do frio, da chuva, da falta de água. Nunca fingimos tanto.

Nunca mostramos o que não somos, para quem não gostamos como nesses novos tempos. Nunca nos endividamos tanto em busca de uma felicidade exterior. Nunca mentimos como agora, para enganar nossas frustrações. Nunca tivemos tantos “amigos” ao mesmo tempo em que convivemos tão sós. Deixamos de ouvir, de olhar nos olhos, de namorar demoradamente. Nunca tivemos memória tão curta. Nunca perdemos a noção de tempo como hoje. Nunca fomos tão ignorantes aos sinais da natureza. Nunca estivemos tão doentes de nós mesmos. Nunca esquecemos tão rapidamente de nossos amigos que estão morrendo. 

Nunca comemos e dirigimos tão mal e apressadamente como agora. Nunca nos idiotizamos de forma robotizada e estúpida como atualmente. Nunca ignoramos tantas pessoas ao mesmo tempo . Nunca demonstramos tanta inutilidade existêncial diante de nossa subserviência à máquina, às telas e aos teclados. O sucesso nunca foi tão efêmero. O gosto músical nunca foi tão rebaixado como agora. Nunca se tocou tanta porcaria nas rádios, se mostrou tanta irrelevância na TV e se propagou tanta asneira como nesse tempo de hoje. 

Nunca a fé foi tão comercial. Nunca homens e mulheres foram considerados tão culpados pelos seus fracassos como agora. Nunca houve tantos fracassados, nem tantas pessoas dispostas a mostrar o caminho do sucesso, vendendo livros de autoajuda. Nunca fomos tão carentes de abraços, de sorrisos e  de apertos de mão. Nunca corremos tanto sem ter um lugar para chegar. Nunca estivemos tão distantes para quem está tão perto e tão “próximos” para quem está longe. 

Nunca escrevemos ou falamos  “eu te amo” sem sentido algum como agora. Nunca fomos tão enganados por esperanças e ilusões que acreditamos existirem, mesmo sabendo que quem nos conta são mentirosos.  Deixamos de celebrar um simples almoço, um jantar com as pessoas que nos fazem bem,  porque,  enfrentamos como nunca, tantas filas para “comer fora”. Enfim, nunca nos enganamos tanto como agora, mesmo sabendo que lá dentro, em nossa essência, o nosso mais profundo eu, vai um dia cobrar sua parte. Agora como sempre.

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