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Pedro Pedrossian Neto: "Olhares furtivos"

Empresário, economista, professor e mestre em Economia Política pela PUC-SP, é diretor-executivo da Nova Miranda Urbanizadora

Redação

23/02/2015 - 00h00

O olhar treinado para esquivar, para tornar invisível, repete o gesto até torná-lo normal e aceitável. A miséria é desagradável aos olhos, sendo mais fácil negar-lhe a existência. No semáforo, no afastamento do sertão, no abismo da periferia – lá onde o progresso ainda não chegou, ou deliberadamente excluiu – vivem apagados pelo esquecimento milhões de brasileiros submetidos à pobreza.

Em Mato Grosso do Sul, 150 mil pessoas de diversas idades encaram a realidade cotidiana da extrema pobreza, isto é, privar-se de quase tudo a todo momento – ou, traduzindo em dinheiro, o equivalente a uma renda mensal inferior a setenta reais. Os que são apenas pobres, sem ser miseráveis – pois vivem com meio salário mínimo –, são nada menos do que 806 mil pessoas no Estado – quase 1 em cada 3 pessoas, segundo o IBGE.

A pobreza é um fenômeno social complexo e possui muitas origens. Uma delas, um tanto óbvia, é o acesso à educação. Não por coincidência, o número de sul-mato-grossenses analfabetos é de cerca de 141 mil, um contingente que pouco entende do noticiário, que decora letreiros para pegar o ônibus certo e nem sequer pode acessar o texto que você agora lê. 

A educação é tão determinante da condição social que os municípios com mais analfabetos são também aqueles com mais pessoas em situação de pobreza extrema: em Japorã, no extremo sul do Estado (onde predominam assentados e indígenas), 23% das pessoas não sabem ler ou escrever, e a pobreza extrema atinge 45% da população; em Paranhos, estes indicadores são de 17% e 37%, respectivamente; em Tacuru, 19% e 27%; Coronel Sapucaia e Juti também enfrentam realidade similar. A brutalidade do analfabetismo cava fundo, até que o fosso seja intransponível.

Os programas de transferência direta de renda, como o Bolsa Família, do governo federal, ou o Vale-Renda, estadual, transferem cerca de R$ 29,5 milhões por mês, a 141 mil famílias em MS (490 mil pessoas), o que dá cerca de R$ 354 milhões ao ano. Considerando o PIB de MS em 2014, de cerca de R$ 60,2 bilhões, a ajuda financeira representa cerca de 0,5% de toda a riqueza gerada no Estado. 

Embora relativamente barata como opção de política pública, emergencial e de curto prazo, é clara a limitação desta estratégia de combate e superação da pobreza no longo prazo: além de capacitar o indivíduo a criar ele próprio a riqueza por meio do trabalho, é preciso acrescentar outro ingrediente na “fórmula da prosperidade”: muitos empregos – e de qualidade –, prioritariamente no interior de MS.

Muitos municípios do interior estão na penúria, mas alguns se sobressaem nesse quesito. Veja, por exemplo, o caso de Miranda: um dos mais antigos do Estado, população com menos de 25 anos superando 45% do total; renda per capita 40% inferior à média de MS, miséria às alturas; nenhuma universidade, nenhum curso técnico urbano, desempenho escolar entre os 10 piores de MS; nenhuma indústria, nenhum frigorífico apesar do rebanho de 330 mil cabeças; turismo incipiente, muito aquém do potencial do Pantanal; agricultura desfavorável pelo regime de chuvas; conflito indígena paralisando a produção no campo. O que mais é necessário para gerar exclusão e miséria?

Os olhos desviantes, quase sempre cínicos, desejam apagar da vista e da consciência a massa homogênea de pessoas que lhes estraga a paisagem. Se as fitassem com fraternidade, talvez poderiam resgatá-las do fundo do poço, do brejo e da modorra. Mas isso implicaria acabar com as condições sociais que permitem a servidão e o subemprego, emancipando o exército de subalternos e peões que confortavelmente os servem. Daria para derrubar os muros, abaixar os vidros, abolindo nosso aparthaid disfarçado. Eis que se descobre, portanto, o motivo pelo qual fingem.

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